Home » Câncer - prevenir é a saída
Câncer - prevenir é a saída
[Volta]

Título da matéria:Câncer - prevenir é a saída
Data: 23/05/2006
Veículo: O Povo (CE)
Tipo de matéria: Entrevista

Durante os próximos anos, a tentativa será disseminar uma nova política de atenção à saúde oncológica. As rédeas, o Governo Federal deverá oferecer. Caberá aos estados e municípios receberem as diretrizes e se moldarem a elas, em uma ação conjunta e participativa.

Ele está na direção geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca), órgão vinculado ao Ministério da Saúde (MS), há 10 meses. À frente de Luiz Antonio Santini, um fluminense de 60 anos, uma responsabilidade de grandes proporções: comandar e disseminar a nova Política Nacional de Atenção Oncológica. Iniciadas com a portaria 2.439, publicada em dezembro do ano passado pelo MS, as novas diretrizes têm enfoques básicos - prevenção, descentralização e informação.
Santini esteve em Fortaleza no início deste mês, participando de uma das oficinas estaduais que discutiram e começaram a pôr em prática as novas orientações da portaria. Em conversa com O POVO, o diretor geral do Inca foi enfático ao associar a necessidade urgente do diagnóstico precoce à redução tanto de gastos públicos quanto do sofrimento das pessoas envolvidas com a doença - pacientes ou familiares.

Atualmente, de acordo com o médico e professor universitário, 60% dos casos de câncer de colo do útero chegam aos serviços de saúde em estágios avançados. "Isso é um custo alto pro Sistema (Único de Saúde, SUS) em dinheiro, é um custo altíssimo em perdas de vidas, e é ineficaz porque você tá tratando com uma doença já muito avançada", defende.

O número de cirurgias realizadas no Ceará está próximo da realidade da demanda, mas ainda aquém do necessário. O tempo de espera para a realização da cirurgia no Estado ainda é grande. Para o câncer, segundo Santini, "isso é um problema". Redirecionar demandas e recursos, investir em informação, incitar a participação social são também objetivos dessa nova política. Para Luiz Antonio Santini, que já foi subsecretário da saúde do estado do Rio de Janeiro e diretor executivo da Associação Brasileira de Educação Médica por três mandatos, também falta uma melhor preparação dos médicos na atenção básica de saúde.


O POVO - O principal objetivo da vinda do senhor a Fortaleza é começar a colocar em prática as propostas da nova Política Nacional de Atenção Oncológica. No que ela difere das anteriores?
Luiz Antonio Santini - A principal mudança é a abordagem do câncer como um problema de saúde pública. Na verdade, até muito recentemente o câncer era visto como uma doença ligada aos procedimentos de alta complexidade: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, que são necessidades de fato pra tratar o câncer. No entanto, o câncer hoje é a segunda causa de morte no Brasil. E em alguns países do mundo é a primeira. Muitas coisas mudaram. Por exemplo, até alguns anos atrás o câncer era uma doença terminal. Quem tinha câncer, praticamente tinha pouca expectativa de cura.

OP - Sobre essa visão que se tinha do câncer "até alguns anos atrás", o senhor se refere a exatamente quanto tempo?
Santini - De 15, 30 anos pra cá esses casos vêm melhorando progressivamente. Com essa mudança, com o câncer podendo ser tratado ou curado em alguns casos, isso aumentou a importância do diagnóstico precoce. Em alguns casos específicos, como o câncer do colo do útero - na mulher -, ele pode ser eliminado, porque na maioria dos casos ele é ligado a uma infecção por VÍRUS HPV e se essa infecção for detectada e tratada, o risco de câncer diminui muito.

OP - A ênfase nas pesquisas no Brasil tem recaído sobre o câncer de mama e de colo do útero. Por que a incidência desse tipo de câncer ainda é tão alta?
Santini - No caso do câncer de colo do útero, é falta de diagnóstico precoce e de tratamento da doença precursora, que é uma infecção por vírus, o HPV - o que não é câncer ainda. Agora, quando já existe o câncer de colo do útero, se ele for detectado precocemente ele também é curável. Então ele é evitável e curável. Por isso que é muito mais importante ter uma política que possibilite essa detecção e a cura do câncer de colo do útero do que você ficar concentrado no tratamento do câncer de colo do útero avançado, que é a realidade de hoje. Hoje, mais de 60% dos casos de câncer de colo do útero chegam aos serviços de saúde em estágios avançados. Isso é um custo alto pro Sistema (Único de Saúde, SUS) em dinheiro, é um custo altíssimo em perdas de vidas, e é ineficaz porque você tá tratando com uma doença já muito avançada. Com a nova política, ela muda o enfoque do programa. Em vez de você tratar o câncer como uma questão de alta complexidade, nós estamos olhando o câncer como um problema que tem dimensões na atenção básica, na atenção de média complexidade e na atenção especializada, que é a organização do serviço de alta complexidade.

OP - A nova política pretende estruturar planos regionais de controle do câncer que respeitem as particularidades de cada região...
Santini - Esse é um outro componente importante. A política nacional, na verdade, são diretrizes que definem prioridades. Mas o plano de ação tem que ser estadual, porque a organização do serviço é muito diferente de estado pra estado.

OP - Então essas "particularidades" não se referem só à incidência de determinado tipo de doença em um Estado.
Santini - Não só a isso. Pode haver alguma mudança. No Brasil inteiro, o câncer de mama é o primeiro na mulher. Em segundo (lugar), em algumas regiões, é de pulmão; em outras é de colo do útero; em outras é de estômago. Aqui (no Ceará), por exemplo, é de estômago. Então existe uma variação de incidência que requer organização do serviço. Mas o principal são esses outros elementos dos quais eu falei: a própria estrutura do serviço, a capacidade de organização, a capacidade de gestão e a participação da sociedade.

OP - Em relação à estrutura organizacional, o senhor poderia citar algumas dessas particularidades no Ceará?
Santini - O número de cirurgias que o Ceará realiza é menor do que a necessidade que ele tem, de acordo com a estrutura atual. São em torno de 4.500, 4.600 cirurgias que são necessárias por ano e a rede está realizando em torno de 4.000 ou um pouco menos. Isso quer dizer que há necessidade de se reorganizar as cirurgias. Muitas vezes, não há necessidade de se criar uma nova unidade. Nada disso. É necessário se redirecionar a demanda. Apesar de ele estar praticamente realizando o número de cirurgias necessárias, o tempo de espera para a realização da cirurgia é grande. E isso para o câncer é um problema. Além de exigir que seja diagnosticado precocemente, uma vez diagnosticado, ele tem que ser tratado rapidamente. O tempo de espera entre o aparecimento da doença e o início do tratamento é fundamental para o resultado. Quanto mais demorar, pior o resultado. Então não é só a quantidade. É também o tempo. E há no Ceará - como no Brasil de modo geral, até mesmo lá no Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro - um tempo de espera entre o diagnóstico e o início do tratamento ainda muito prolongado. No Canadá, esse tempo de espera é de oito semanas, no máximo. No Brasil inteiro, esse tempo pode chegar a três, quatro meses. Às vezes até mais, dependendo do tipo de tumor; se tem ou não tem especialistas pra fazer o atendimento; se a oferta é maior ou menor. E também (depende) do tipo de tratamento: se é cirurgia, quimioterapia, radioterapia. Estávamos falando antes que o número de cirurgias (no Ceará) é menor, mas é aproximadamente o necessário. Já o número de quimioterapias é maior do que o necessário. Temos que verificar por que (acontece) isso. Pra que isso seja comprovado efetivamente, é necessário que se discuta quais os protocolos de tratamento que são utilizados.

OP - O que são esses protocolos?
Santini - Para cada tipo de tumor você tem um conjunto de recursos de tratamento - cirúrgico, quimioterápico, radioterápico. Já existem alguns protocolos muito bem definidos. Diante destes é que nós temos constatado que há, no caso da quimioterapia, um tratamento além do número necessário. Mas isso também não é uma particularidade do Ceará. Acontece de um modo geral no Brasil. Já na radioterapia, o número de focos irradiados é menor do que o que deveria ser alcançado. Então se precisa se reestruturar isso.

OP - Em relação aos cuidados paliativos, também previstos na nova política, iniciado o tratamento, como se aliviar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida dos doentes e seus familiares que moram no Interior e precisam ser tratados na Capital? De que forma a nova política pretende tratar esse tema?
Santini - Dentro dessa nova política, já existe um conselho chamado Consinca (Conselho Consultivo do Instituto Nacional de Câncer). Ele cuida da elaboração das diretrizes que depois vão se transformar em políticas para o Ministério. Essa PORTARIA inclusive foi elaborada pelo Consinca, e depois aprovada pelo Ministério. O Consinca já criou uma comissão, um núcleo de trabalho especial, pra exatamente elaborar agora diretrizes para os cuidados paliativos. Por quê? Lembra que eu te falei que 60% dos casos (de câncer) são atendidos já em fase avançada da doença? Isso quer dizer que praticamente 60% dos nossos recursos são voltados para o tratamento paliativo. Na verdade tem que ter uma política pra isso. E é uma coisa muito complexa desenvolver esse programa, porque é muito caro você descentralizar todos os recursos de oncologia e não tem dinheiro pra fazer isso. E nem tem dinheiro nem especialistas pra colocar em cada cidade - isso é impossível. Mas pelo menos em cada região você tem que ter. Mas mesmo numa região dentro de um estado, você tem dificuldade de deslocamento das pessoas, você tem esse sofrimento que significa a pessoa estar afastada da família, ter que se deslocar pra fazer uma quimioterapia. Aí entra um outro fator dentro dessa proposta que é a coisa da mobilização social - como que a sociedade pode ajudar com isso. Nós temos um exemplo muito positivo aqui no Ceará que nós não temos em outros lugares e eu gostaria de citar - é a CASA DE APOIO DO ICC (Instituto do Câncer do Ceará).

OP - A Casa Vida coordena 150 voluntários nas mais diversas áreas. O senhor se refere especificamente ao voluntariado?
Santini - Ao voluntariado também, mas estou falando nesse caso especificamente dos pacientes submetidos a tratamento paliativo que têm de se deslocar. Ter uma casa de apoio é uma boa iniciativa. É um lugar que não é hospital. O contato dele (paciente) com o hospital é ambulatorial. É na quimioterapia, é na radioterapia. Mas ele não tem onde ficar. Então isso é pra não ter esses deslocamentos imensas vezes, por longas distâncias, sofrido, às vezes mais de uma vez por semana e usando drogas que causam mal-estar, desconforto. Pra evitar tudo isso ou amenizar, pelo menos, algumas iniciativas da sociedade são suportes pro paciente. Na área infantil existe um programa do INSTITUTO RONALD MCDONALD que faz isso em todo o Brasil e que inclusive tem uma parceria com o Instituto Peter Pan (em Fortaleza), que também é uma entidade de apoio à criança com câncer que trabalha junto com o Hospital Infantil Albert Sabin (Hias). Outra coisa fundamental da qual não falei ainda é o tabagismo. É um problema que tem que ser horizontal, ou seja, passando por todas as dimensões da sociedade. Pelas escolas, ambiente de trabalho, área legislativa - fazer leis específicas restringindo os ambientes em que se pode ou não fumar, por exemplo. E isso tem uma repercussão importantíssima, pois 90% dos casos de câncer de pulmão são ligados ao tabagismo.

OP - Os médicos do Programa de Saúde da Família (PSF) estão preparados para identificar casos suspeitos de câncer e encaminhá-los para serviços especializados?
Santini - Não estão. E no programa da detecção precoce ninguém é especialista. Ninguém vai ao especialista saber se tem câncer. O cara vai ao médico porque está sentindo alguma coisa. Ou mesmo que não esteja sentindo nada, está na faixa etária em que se deve fazer algum tipo de exame preventivo. A porta do sistema, a rede do Programa de Saúde da Família, tem que estar preparada para pelo menos suspeitar e encaminhar um paciente para fazer um exame preventivo. Um outro componente ainda é o da pesquisa. E aí você tem hoje por exemplo o Instituto do Câncer do Ceará (ICC), que tem já uma base técnica instalada, uma capacidade não só física mas também de recursos humanos. Essa unidade pode vir a ser uma unidade de referência, um centro de atenção oncológica de referência. O que é isso? É aquela que vai ajudar além do atendimento, a fazer pesquisas, a melhorar a formação de recursos humanos, a formar residentes, a formar gente, a capacitar esse pessoal para o diagnóstico no nível da rede, e fazer pesquisas que envolvem aquelas necessidades epidemiológicas, pesquisas específicas. Por exemplo: por que o câncer de estômago é mais freqüente aqui no Ceará do que em outros estados? Isso é um objeto de pesquisa e o ICC tem condições, por exemplo, de fazer pesquisas como essa.

OP - Mas já existe alguma pesquisa local nesse sentido?
Santini - Hoje nós temos esse dado, mas não existe nenhuma pesquisa sendo desenvolvida pra demonstrar isso. Uma hipótese é de que isso pode estar ligado a uma deficiência na conservação de alimentos, na utilização adequada de geladeiras, ou de que os alimentos sejam conservados com muito sal. Mas nada disso é comprovado. É preciso que alguma coisa seja feita pra comprovar essas hipóteses, até para que se possa agir também.

OP - O Ministério da Saúde já anunciou que em 2006 vai destinar R$ 46 milhões para os planos de ação dos estados...
Santini - Foram R$ 46 milhões alocados para o desenvolvimento de todas as ações, mais R$ 13 milhões especificamente para apoiar a construção dessa rede. Então na verdade o conjunto dos recursos orçamentários para esse ano pra atenção oncológica está nessa faixa, de R$ 59 milhões.

OP - O Ministério da Saúde já tem definidas as metas e a distribuição de recursos para o Ceará ou algum outro estado?
Santini - Ainda não. A lógica anterior é a seguinte: o Ministério (da Saúde) pegava um total de recursos e distribuía de acordo com o critério da população - distribuição per capita. Claro que isso é um parâmetro. Mas se tem uma população grande, mas não tem organização, não tem capacidade, vai desperdiçar o dinheiro. Então é muito melhor você trabalhar construindo com cada estado as metas e as metas vão ser feitas em cima do parâmetro populacional, e você vai alocando recursos de acordo com essas metas e aí vai viabilizando o funcionamento. Além de recursos financeiros, nós estamos trazendo uma assessoria técnica muito fértil para os estados pra fazer esse plano. Hoje o orçamento da saúde é tripartite - tem participação federal, do município e do estado. Existe uma lei, a Emenda 29, que garante o percentual dos recursos que os estados e municípios têm que apontar pra saúde. Ela é uma emenda constitucional que está no Congresso (Nacional) há vários anos, está muito discutida, está para ser aprovada, mas ainda não foi. Mas mesmo não tendo essa garantia global definida, há uma diretriz governamental de que estados e municípios participem com percentuais permanentes alocados pra atenção em saúde. A maioria não cumpre isso e fica muito na dependência do Governo Federal. Os municípios até cumprem mais do que os estados, porque têm uma pressão muito forte de demanda, que os obriga a gastar - mas nem sempre eles gastam da melhor maneira. Às vezes o município acaba gastando grande parte do dinheiro transportando doentes, porque não tem estrutura. Então ele acaba gastando até mais do que a lei determina, mas gasta com transporte, às vezes com compra de remédio que não deveria estar comprando. Mas às vezes ou pressionado pela família, ou politicamente, ou pela Justiça, que o obriga a dar determinado medicamento. Isso tudo é que a gente está procurando dar uma reordenada. E no caso do câncer isso é fundamental porque, por mais que a gente organize, os gastos tendem a aumentar. Por quê? Porque a população está envelhecendo. Então os casos de câncer inevitavelmente vão aumentar.

OP - A gente sabe que o câncer pode aparecer em pessoas de qualquer idade. Existe alguma faixa etária em que a doença pode ser mais facilmente diagnosticada ou mesmo controlada?
Santini - Existe. Por exemplo, o câncer infantil é bastante diferente do câncer do adulto. Ele tem que ser procurado. Existem alguns tipo de câncer, como o retinoblastoma, por exemplo, que é um tumor raro, que dá no olho da criança. Ele é considerado um tumor com 40% de estado de tumor de origem genética, e tem portanto uma incidência familiar. Uma família que tem casos de retinoblastoma tem que passar por um acompanhamento e essa própria criança, quando tiver um filho, pode tê-lo com retinoblastoma. Ele é um tumor raro que, se descoberto precocemente, é curável. Quem descobre? É o pediatra. Não é o oftalmologista, nem o oncologista. O pediatra precisa estar atento.

OP - No caso das crianças, então, elas devem ser observadas com certa freqüência mesmo que os pais ou responsáveis não suspeitem de nada?
Santini - Exatamente. Já no caso de câncer de colo do útero, por exemplo, todas as mulheres na faixa etária acima dos 35 anos precisam fazer o exame periódico do colo do útero. Porque, se elas tiveram uma infecção por HPV, elas passam a estar mais propícias, mas podem tratar e pronto, acabou. Mesmo que um pouco mais velha, ela tenha já um carcinoma, um pequeno tumor no colo do útero, esse tumor pode ser ressecado e tratado. Por isso é que é importante a atitude preventiva. No caso da mama: as mulheres entre 45 anos e 69 anos precisam fazer exames periódicos da mama por quê? Porque é uma faixa etária de grande incidência. Se elas tiverem algum caso de câncer na família, (precisam ter) mais atenção ainda. A detecção precoce aumenta em 30% a possibilidade de cura. No caso dos homens: o câncer de próstata. Todo homem acima de 40 anos tem que pelo menos uma vez por ano procurar um urologista e fazer um exame clínico.

OP - Então é consenso que qualquer tipo de câncer é curável, desde que diagnosticado precocemente?
Santini - A possibilidade de cura varia de tipo pra tipo de câncer. Nem todos têm a mesma possibilidade de cura. É como eu falei: o câncer de colo de útero é perfeitamente curável na maioria dos casos se ele for descoberto precocemente. Já o câncer de mama é um pouco diferente. A detecção precoce aumenta em 30% a expectativa de cura, mas ele ainda é um câncer grave. Mas de qualquer forma, a atitude preventiva é fundamental. É preciso uma mudança de atitude. A redução de preconceitos em relação ao câncer, que é uma doença sobre a qual ainda existe muito preconceito. Existe uma visão de que o câncer é uma coisa necessariamente fatal. E às vezes acontecem coisas assim, por exemplo: uma vez um motorista de táxi me falou: "Ih, doutor, disseram pra minha mulher que ela tinha que fazer o exame do colo do útero, mas ela disse que não vai fazer de jeito nenhum porque tem medo de ter a doença". Quer dizer, a fantasia do cara é quase incompreensível. Ela não faz o exame com medo de encontrar. Faltava pra ela tanta informação!

OP - O diagnóstico precoce do câncer é a principal meta da nova política?
Santini - Essa é a chave do processo. E a outra questão são as medidas gerais chamadas preventivas, que são os hábitos de vida mais saudáveis, exercícios físicos. E a gente tem que esclarecer bem o que a gente quer dizer com isso. Não quer dizer que a pessoa tenha que ficar correndo em qualquer lugar. Se ela já tem uma atividade física regular, é manter isso. Se não tem, é fazer isso, do jeito que puder. Se não puder fazer exercício correndo na praia, suba ou desça escada em vez de pegar o elevador; desça um ou dois pontos de ônibus à frente ou dois atrás... Não é preciso se transformar num atleta. O que é preciso é deixar de ser sedentário. É preciso não fumar. Você não pode proibir as pessoas de fumarem, mas você pode criar ambientes livres de fumaça. A nicotina, o cigarro e outras substâncias que o cigarro contém, provocam dano por saturação. Não é um ou outro ocasionalmente. Então é o ambiente carregado de fumaça, que acaba contaminando todo mundo. Não é uma questão de "Eu tenho direito de fumar". Claro que tem, mas até onde começa o limite do outro. Isso faz um mal pra todo mundo, pra coletividade. Pra você mesmo tudo bem, você tem até esse direito.

OP - Mas quem é fumante não gosta muito desse argumento...
Santini - (Risos) Realmente quem é fumante não gosta desse argumento. E é um argumento tão simples de entender.

OP - O Inca, em parceria com o Instituto Nacional de Câncer do Canadá, começou a testar em março deste ano uma nova droga em pacientes com câncer de pulmão avançado. Que pesquisas estão hoje em andamento na instituição?
Santini - Existem várias hoje, desde pesquisas mais básicas a pesquisas sobre a biologia do desenvolvimento do tumor. Esse estudo em câncer de pulmão em parceria com o Canadá refere-se à aplicação de um novo tratamento, com a expectativa de aumentar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida. Não tem expectativa de cura nesse caso. E esse é um ponto fundamental. Nós não falamos ainda aqui, mas é importantíssimo falar que é a coisa do cuidado paliativo, e um dos objetivos dele é melhorar a qualidade de vida.

OP - Inclusive das pessoas que não têm mais a possibilidade de curar a doença.
Santini - Isso. Uma coisa é a expectativa de curar. Outra coisa é tratar. Curar nem sempre você pode. Tratar, você tem que tratar sempre. A medicina tem essa obrigação de tratar todas as pessoas, ainda que não seja pra curar. Curar é uma possibilidade que, se existir, ótimo. Mas a função nobre da medicina não é curar, é tratar, é cuidar. Curar, se possível.

Fonte: Jornal O Povo (CE)
Instituto Nacional de Câncer - INCA
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro
20230-130 - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 3207-1000


Copyright © 1996-2014 INCA - Ministério da Saúde - Praça Cruz Vermelha, 23
Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000
A reprodução, total ou parcial, das informações contidas nessa página é permitida sempre e quando for citada a fonte.
Gerenciado pelas divisões de Comunicação Social e Tecnologia da Informação