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Epidemiologia dos tumores da criança e do adolescente
Desde 1970, vem-se observando um aumento linear das taxas de cura dos tumores na infância, estando estas, atualmente, variando entre 70% e 90% dos casos, nos Estados Unidos. No Brasil, as crianças e jovens com leucemia linfática aguda (LLA) curam-se em 70% a 80% dos casos.

Paralelamente, tem-se verificado um aumento progressivo, e também linear, das taxas de incidência dos tumores da criança, sobretudo a LLA, os tumores do sistema nervoso central (SNC), os linfomas não Hodgkin e o tumor de Wilms e outros tumores renais. Por exemplo, de dez a quinze casos de câncer, entre indivíduos com menos de 15 anos de idade, no Brasil, quatro são de LLA.

Supostamente, a criança tem mais anos a perder, ou a ganhar, uma vez que a sua expectativa de vida é maior do que a do adulto. Atualmente, as crianças com câncer só não têm um maior índice de anos de vida ganhos do que as mulheres com câncer de mama.

Quando se tenta interpretar as tendências das taxas relativas aos tumores na infância, depara-se com duas principais dificuldades: Primeira, a raridade da ocorrência do câncer, nesta fase da vida, e, segunda, a utilização de modelos mais aplicáveis ao câncer de adultos - embora já haja modelos mais apropriados à avaliação estatística do câncer da criança, em alguns países ou regiões.

A maioria dos registros de câncer apresenta seus dados dispostos em categorias de idade com intervalos de 5 anos e por localização primária do tumor. Apesar de este formato ser satisfatório para a maioria dos tumores do adulto, ele se mostra inadequado para a área infantil, visto que, exceto pelos tumores do SNC, os tumores da criança se classificam por tipo cito - ou histopatológico, e não pela topografia do tumor primário. Ademais, há grandes variações nas taxas específicas por idade, ano a ano, e muitos padrões demográficos infantis podem não se expressar, à utilização de intervalos de tempo tão longos, relativamente às crianças. Uma forma de se superar esta distorção seria a distribuição de dados por ano e por milhão de pessoas (e não por 100.000 habitantes, como se costumam calcular as taxas, o que exclui os cânceres mais raros, como o são os tumores na infância).

Outra dificuldade relevante se deve ao fato de os censos demográficos realizarem-se a cada 10 anos, o que faz com que as taxas de incidência e mortalidade sejam calculadas com base em populações estimadas intercensitárias. Este artifício matemático induz a erros, sobretudo quando o numerador se constitui de números muito pequenos, caso dos tumores na infância.

Vale considerar, também, que, a cada dia, as classificações desses tumores ganham mais detalhamento, por conta dos avanços continuamente observados nas técnicas laboratoriais, que se baseiam na Biologia Molecular, na Imunologia e na Genética Celular. A incorporação dos novos conhecimento e tecnologia disponíveis tem-se tornado essencial aos estudos sobre a etiologia dos tumores na infância e à prática da Oncologia Pediátrica - o diagnóstico dos tumores e o tratamento e acompanhamento, a longo prazo, das crianças deles tratadas.

Faz-se necessário, assim, que os registros de câncer disponham os seus dados de modo a permitir que eles se classifiquem, também, por sub-grupos etários e por morfologia tumoral.

Levando-se em consideração as limitações anteriormente ressaltadas, tentar-se-á, a seguir, apresentar e discutir alguns aspectos das taxas de incidência e de mortalidade por câncer, entre as crianças e adolescentes brasileiros. Para tanto, utilizar-se-ão os últimos dados publicados, referentes aos cinco RCBP, atualmente em atividade no País: os de Campinas (1992), Goiânia (1991), Porto Alegre (1991), Belém (1989) e Fortaleza (1985).

As taxas, brutas, foram calculadas para os cinco tipos tumorais mais freqüentes, em cada registro, com base no denominador de três faixas etárias: 0 a 4 anos, 5 a 9 anos e 10 a 14 anos, exceto as de mortalidade, em Belém, cujos dados distribuem-se em apenas duas, de 0 a 9 anos e de 10 a 19 anos (Tabela 1.4).

Belém 1989
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 0 a 9 10 a 19 0 a 9 10 a 19
Ossos e articul. 0,79 0,77 0 1,68
L. Linfoide 2,38 0,77 0,66 0
Outros Linfomas 1,59 1,53 0 0
Traquéia, Bron. e Pul. 0,82 0,79 0 0
Leucemia SOE 0,79 0,77 0 0
Fortaleza 1985
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 0 0 1,15 1,2 2,31 2,29
L. Linfoide 2,31 2,29 5,06 1,2 1,16 2,36
Linfoma Ñ Hodgkin 0 1,14 0 0 0 1,18
L. Mieloide 0 0 1,16 0 0 2,36
Rim 1,15 0 0 1,2 1,16 0
Campinas 1992
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 0 a 4 5 a 9 10 a 14 0 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 9,93 2,33 2,30 5,22 0 0
L. Linfoide 2,48 0 2,30 0 0 0
Olho 0 0 0 0 2,41 0
Outros Linfomas 0 0 2,38 0 0 0
Faringe 0 2,33 0 0 0 0
Goiânia 1991
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 1,15 0 0 0 1,68 0
L. Linfoide 0 1,64 0 2,39 1,68 0
Ossos e art. 0 0 0 1,68 1,58 0
Loc. mal definidas 1,15 0 0 1,19 1,68 0
L. Mieloide 0 0 0 1,19 0 0
Porto Alegre 1991
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 0 0 3,44 0 0 1,75
L. Linfoide 2,27 0 5,17 0 1,74 5,17
L. Mieloide 0 1,68 0 0 1,74 3,49
Leucemia SOE 2,27 0 0 2,35 0 3,49
Tec. Conjuntivo 0 2,35 0 0 0 0
Tabela 1.4 - Taxas brutas de mortalidade por cânceres na infância e adolescência, distribuídas por faixa etária e sexo, em anos diversos.
Fontes: Registros de Câncer de base populacional - Brasil

Os dados de incidência (Tabela 1.5) não coincidem inteiramente com os da literatura internacional, como se verá a seguir.

Belém 1989
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 5,67 1,74 2,49 2,99 0 2,49
L. Linfoide 6,45 7,92 0 3,10 2,84 0
Outros Linfomas 0 6,09 5,97 2,76 1,26 0
D. Hodgkin 0 1,83 5,37 0 1,26 0
Olho 2,07 0 0 4,14 0 2,29
Fortaleza 1985
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 1,15 3,43 1,26 2,39 2,31 2,36
L. Linfoide 2,31 6,87 5,06 2,39 1,68 0
Linfoma 4,62 2,29 0 0 0 1,18
L. Mieloide 1,15 1,14 0 1,16 4,73 0
Rim 1,15 1,26 0 1,2 0 0
Campinas 1992
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 0 a 4 5 a 9 10 a 14 0 a 4 5 a 9 10 a 14
Tec. Conj. 0 4,66 0 8,28 5,1 0
L. Linfoide 9,93 2,33 0 0 4,82 0
Encéfalo 4,96 2,33 2,3 2,61 0 2,38
Outros Linfo 0 4,66 0 2,61 2,41 2,38
Rim 2,48 0 0 5,22 0 0
Goiânia 1991
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 1,64 3,35 1,54 0 5,04 0
L. Linfoide 1,15 3,28 0 1,19 0 0
Ossos e art. 0 0 0 0 1,68 3,15
Glând. Ñ Tireoide 1,15 0 0 2,39 0 0
D. Hodgkin 0 0 3,35 0 0 0
Porto Alegre 1991
  sexo masculino
Faixa Etária
sexo feminino
Faixa Etária
Diagnóstico 1 a 4 5 a 9 10 a 14 1 a 4 5 a 9 10 a 14
Encéfalo 0 0 0 0 0 0
L. Linfoide 0 0 0 0 0 0
Linfoma Ñ Hodgkin 0 0 0 0 0 0
L. Mieloide 0 0 0 0 0 0
Rim 0 0 0 0 0 0
Tabela 1.5 - Taxas brutas de incidência de cânceres na infância e adolescência, distribuídas por faixa etária e sexo, em anos diversos.
Fontes: Registros de Câncer de base populacional - Brasil

Os casos incluídos sob a rubrica outros linfomas, que se refere a casos classificados como linfoma não Hodgkin ou Doença de Hodgkin, encontram-se entre os mais incidentes, nos registros de Campinas, Belém e Porto Alegre.

Em Campinas, chama a atenção, também, a alta incidência de tumores do tecido conjuntivo. São igualmente atípicas as taxas da leucemia mielóide, em Fortaleza e em Porto Alegre, e as de tumores de glândulas outras que não a tiróide, em Goiânia.

Por outro lado, a classifcação de tumor de olho, entre os mais incidentes em Belém, vem corroborar dados de registros hospitalares, que apontam para uma alta ocorrência de casos de retinoblastoma, no Brasil, se comparada com a encontrada em países da Europa e da América do Norte.

Já a classificação da incidência das leucemias linfóides e dos tumores encefálicos, entre o grupo dos cinco tumores mais freqüentes, nos cinco registros ora analisados, é acorde com os dados de registros de outros países, o que indica que, a despeito das dificuldades metodológicas, já apontadas ao início desta seção, o modelo serve para demonstrar os grupos de casos mais marcantes.

Já as taxas de mortalidade (Tabela 1.4) mostram que a LLA, em todos os registros, põe-se entre as cinco primeiras causas de morte por câncer, de forma variável entre os sexos e as faixas etárias, e que entre elas não se encontram os tumores encefálicos, em Belém (o que é de se estranhar, visto a taxa de incidência destes tumores ser maior do que a calculada para os demais registros).

O encontro de tumor de olho entre as cinco primeiras causas de morte, no registro de Campinas, também pode ter a mesma interpretação, dada a incidência maior deste tumor, no Brasil, novamente corroborando dados de registros hospitalares de câncer.

Por outro lado, o achado de tumores de faringe, em Campinas, de causas mal definidas, em Goiânia, e de tumores de traquéia, brônquios e pulmão, em Belém, mais provavelmente se deva à distorção, já discutida anteriormente, que a inadequação da distribuição topográfica e cronológica dos tumores, utilizada nos registros de câncer, traz à classificação dos tumores da criança e adolescentes.

As dificuldades metodológicas, a especificidade de tumores e as ressalvas, feitas a partir dos dados apresentados anteriormente, demandam a adoção de métodos e técnicas apropriados à coleta e análise dos dados de incidência e mortalidade dos tumores de ocorrência na infância e na adolescência. Da mesma maneira, requer-se de uma metodologia específica para a análise dos dados do seguimento feito com os pacientes tratados, de modo a oferecer-se uma metodologia igualmente adequada para o estudo analítico das conseqüências, através dos anos, dos tratamentos aplicados.

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. COORDENAÇÃO DE PROGRAMAS DE CONTROLE DO CÂNCER. "O Problema do Câncer no Brasil", quarta edição revisada e atualizada. Rio de Janeiro, 1997



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