Identificação: R.G., 32
anos, mulher, branca, casada, de prendas domésticas, natural
de e residente em São Paulo, capital.
Queixa principal: "Caroço no pescoço."
História da doença atual: Conta a paciente
que há três meses notou a presença de nódulo
na região cervical direita, de cerca de 1,5 cm de diâmetro,
que vem crescendo rapidamente até o tamanho atual de aproximadamente
4 cm. Diz que o nódulo é indolor e nega rubor e calor
locais. Não apresentou febre, sudorese noturna, nem emagrecimento
no período. Nega rash cutâneo, amidalite e infecções
dentárias.
Interrogatório sistemático: Nega dores articulares,
mialgias e estado gripal. Não faz uso de qualquer medicamento.
Antecedentes pessoais: Menarca aos 13 anos. Catamênios
regulares. Gesta III para III (três partos cesários).
Nega doença venérea e tuberculose.
Antecedentes familiares: Pai falecido de câncer de
estômago. Mãe operada de câncer de mama. Nega
tuberculose em familiares próximos.
Hábitos de vida: Nega
tabagismo e etilismo. Boas condições de moradia, alimentação
e higiene. Sem contato com ambientes úmidos ou mofados nem
com ambientes agropecuários.
Exame físico: Paciente tensa, com fácies de
preocupação. Bom estado geral. Lúcida e cooperativa.
Mucosas coradas. Hidratada. Escleróticas anictéricas.
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Pressão arterial: 120 x 80 mmHg
Pulso radial: 88 bpm
Freqüência respiratória: 24
ipm
Temperatura axilar: 36,7°C
Peso: 59 kg
Altura: 1,63m
Cabeça e pescoço:
Couro cabeludo sem lesões. Cavidade bucal sem anormalidades.
Dentes em bom estado de conservação. Exame
otorrinolaringológico normal. Linfonodo palpável
na região júgulo-carotídea mediana
direita com 4 cm de maior diâmetro, de consistência
aumentada, indolor e sem sinais flogísticos. São
também palpados dois linfonodos menores, coalescentes,
em conjunto com o linfonodo maior. Sem outros linfonodos
palpáveis na cabeça e pescoço, inclusive
nas fossas supraclaviculares. Tiróide simétrica,
sem nódulos palpáveis. Exame do fundo de olho
normal bilateralmente.
Tórax: Tórax simétrico.
Mamas normais à inspeção e palpação.
Exame dos aparelhos respiratório e cardiovascular
sem alterações. Ausência de linfonodos
axilares palpáveis. Abdômen indolor à
palpação superficial e profunda. Fígado
palpável à inspiração profunda,
no rebordo costal direito, apresentando bordas lisas. Espaço
de Traube timpânico. Baço impalpável.
Ausência de linfonodos ínguinocrurais palpáveis.
Membros: Membros
sem alterações.
Ausência de linfonodos epitrocleares
e poplíteos palpáveis.
Exame neurológico normal.
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Que raciocínio diagnóstico pode ser aplicado
neste caso?
Linfadenomegalia cervical sem sinais flogísticos e de evolução
crônica sugere tuberculose, micose, sarcoidose, metástases
de carcinoma localizado na cabeça ou pescoço, linfoma
maligno e doença de Hodgkin.
Como R.G. não referiu contato com alimentos contaminados
nem com pessoas possivelmente infectadas por micobactérias,
e considerando-se as características clínicas da linfadenomegalia,
é pouco provável a hipótese diagnóstica
de adenite cervical tuberculosa.
A suspeita diagnóstica de micose não encontra bases
epidemiológicas e clínicas, em virtude da não-exposição
da paciente a ambientes úmidos e da ausência de sinais
inflamatórios nos linfonodos palpados, de lesões
cutâneomucosas, de sinais respiratórios e de cáries
dentárias.
A sarcoidose costuma apresentar comprometimento hilopulmonar
e atinge preferencialmente mulheres negras. Quando compromete
linfonodos periféricos, estes são pequenos, não
aderem aos planos profundos e raramente alcançam grande
volume. Estas características dos linfonodos não
são encontradas no caso R.G., o que diminui a possibilidade
diagnóstica de sarcoidose.
Linfonodo cervical aumentado, de consistência endurecida
e de evolução crônica pode ser devido ao comprometimento
secundário de tumores malignos localizados na cabeça
ou no pescoço. Como os exames da cavidade bucal, da tiróide
e otorrinolaringológico foram normais, é pouco provável
a hipótese diagnóstica de metástase cervical.
A possibilidade de metástase cervical de tumor oculto de
nasofaringe, ocorrência freqüente na história
deste tumor, é pouco provável, pois a drenagem linfática
do cavum faz-se para linfonodos cervicais posteriores. Também
é pouco provável a possibilidade de tumor oculto
de tiróide com metástase cervical, pois os linfonodos
comprometidos por carcinoma deste órgão são
firmes e palpados nas regiões submentoniana e jugular superficial
A maioria dos pacientes portadores de linfoma maligno (80%) ou
de doença de Hodgkin (60%) relata, como no caso de R.G.,
adenomegalia de evolução que varia de meses a anos,
sem que se manifestem outros sinais clínicos. No entanto,
a apresentação cervical, a ausência de outros
linfonodos periféricos palpáveis e a idade são
dados mais compatíveis com a hipótese diagnóstica
de doença de Hodgkin do que de linfoma maligno. Assim,
entre as hipóteses diagnósticas inicialmente levantadas,
a doença de Hodgkin é a mais provável.
Que exames complementares foram realizados e quais os
resultados relevantes para o caso?
Hemograma - Linfopenia e VHS elevada
Radiografia do tórax em PA e perfil - Aumento das partes
moles do pescoço à direita e do mediastino anterior
e médio, compatível com linfadenomegalias; campos
pleuro-pulmonares sem alterações.
PPD - Não-reator
Interpretação dos resultados e condutas
de confirmação diagnóstica e de tratamento.
A linfopenia não é achado comum da sarcoidose, mas
sim a eosinofilia e a monocitose. O PPD não-reator é
incompatível com as hipóteses diagnósticas
de tuberculose, nesta paciente, e de sarcoidose em fase crônica.
A radiografia de tórax demonstra que não há
doença pleuro-pulmonar evidente, e que a doença
linfática não se restringe ao pescoço, pois
atinge também o mediastino.
O carcinoma da tiróide também pode atingir regiões
linfáticas cervical e mediastínica, porém,
quando atinge o mediastino, inicialmente compromete o mediastino
superior, o que não ocorre no caso de R.G. O achado de
linfadenomegalias mediastínicas é compatível
com um estágio mais avançado da doença de
Hodgkin, cuja evolução se faz pelo acometimento
de regiões linfáticas sucessivas.
Conclui-se, portanto, que o diagnóstico mais provável
é de doença de Hodgkin.
Para estabelecer-se o diagnóstico definitivo de doença
de Hodgkin, está indicada a biópsia excisional dos
linfonodos cervicais comprometidos e posterior exame histopatológico.
A biópsia de linfonodos deve ser cuidadosa, evitando trauma
do material excisado, para que se preservem as estruturas corticais
e medulares do linfonodo e não se prejudique o exame histopatológico.
O linfonodo deve ser ressecado por inteiro, com a cápsula
conservada, extraído com material cirúrgico não-traumático
e manipulado com cuidado após a excisão. Não
deve ser colocado sobre gaze seca, para evitar ressecação
da cápsula, e deve ser encaminhado inteiro e imediatamente
ao patologista, acompanhado da solicitação de exame
adequadamente preenchida. Caso o encaminhamento imediato não
seja possível, deve-se partir o linfonodo ao meio, com
bisturi afiado, e proceder ao imprint em lâmina de vidro,
deixando-se secar ao vento. As partes dos linfonodos serão
encaminhadas ao laboratório dentro de solução
fixadora (geralmente solução de formol a 10%), e
as lâminas, em frasco separado, a seco.
Antes de se executar a biópsia de linfonodo, deve-se eleger
a região e o linfonodo a ser excisado. Nem sempre o linfonodo
mais acessível é o que favorece o diagnóstico.
Deve-se optar pelo linfonodo maior, mais profundo e mais antigo
(evolução acima de três meses).
Quando se dispõe de patologista experimentado, o diagnóstico
definitivo pode ser feito através do exame citopatológico
do material obtido pela punção aspirativa por agulha
fina (PAAF) do linfonodo.
R.G. foi informada sobre a necessidade da biópsia, com a
qual concordou. O procedimento foi efetuado, e o resultado do exame
anátomopatológico é descrito a seguir:
| Nome:
R.G. |
|
Matrícula:
109 |
| Médico:
J.R.J. |
Origem:
H.G. |
N°
do exame: 015 |
| Material: |
Linfonodos |
| Localização: |
Pescoço |
Exame
macroscópico: |
Três
linfonodos aderidos entre si por escassa gordura. São
capsulados, firmes, com superfície de cor cinza-esbranquiçado
homogênea. O maior mede 4 cm de diâmetro
e os outros dois medem 1 cm cada. |
Exame
microscópico: |
Linfonodos
com arquitetura modificada por neoplasia mesenquimal
do tipo linfóide, com formação
de espaços ocupados por células histiocitárias
atípicas, polimorfas, com citoplasma exuberante
e eosinofílico, núcleo simples ou múltiplo,
vesiculoso e macronucleolado. Algumas destas células
são binucleadas e configuram as células
de Reed-Sternberg. Há infiltração
difusa de linfócitos, plasmócitos e eosinófilos
típicos de permeio às células atípicas.
Presença de faixas colágenas alargadas,
envolvendo grupos celulares e formando nodulações. |
| Conclusão: |
Doença
de Hodgkin, forma de esclerose nodular. |
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CID-O
T 196.0
M 9656/3 |
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A paciente foi então submetida a outros exames para o estadiamento
da doença (avaliação da função
hepática e renal, dosagem da desidrogenase láctica
sérica, tomografia computadorizada do tórax e abdômen,
linfografia bipodálica, cintilografia de corpo inteiro com
Gálio67 e biópsia da medula óssea), cujos resultados
foram normais. Para fins de estadiamento, a laparotomia exploradora
é indicada quando a decisão terapêutica depende
da presença de doença abdominal microscópica.
Entretanto, a laparotomia não é indicada quando há
doença mediastínica grosseira e/ou quando estão
presentes sintomas constitucionais (perda superior a 10% do peso
corporal nos últimos seis meses, febre inexplicada acima
de 39 oC e sudorese noturna), já que o tratamento não
será alterado pela presença ou ausência de doença
microscópica abdominal.
O estádio clínico da doença de R.G. ficou
definido como IIA, em virtude do comprometimento de duas regiões
linfonodais do mesmo lado do diafragma (II) e da ausência
de sintomas constitucionais (IIA).
Doença de Hodgkin, subtipo esclerose nodular, supradiafragmática,
com doença mediastínica grosseira e estadiada como
IIA tem indicação de quimioterapia sistêmica
e de radioterapia
R.G. obteve resposta completa com o tratamento instituído
e, decorridos dois anos do tratamento, mantém-se assintomática,
sob controle ambulatorial.