Identificação: M.A.G., 2
anos, masculino, branco, procedente de Campinas (SP)
Queixa principal: Mancha branca no olho direito.
História da doença atual: A mãe refere
que há seis meses notou desvio do olho direito da criança,
sempre que esta fixava o olhar. Procurou um pediatra, que orientou
para observar o desvio por mais algum tempo. Há cinco meses,
procurou um oftalmologista, pela mesma queixa, o qual prescreveu
o uso de óculos para estrabismo. Há um mês,
notou que o olho da criança apresentava reflexo esbranquiçado
na menina dos olhos ao bater da luz, como se fosse olho-de-gato.
Com esta queixa, retornou ao oftalmologista, que a encaminhou a
este serviço especializado.
Interrogatório sistemático: A mãe conta
que neste período a criança mantém atividade
e apetite normais. Nega febre, emagrecimento, palidez e dores ósseas.
Antecedentes pessoais: Segundo filho, gestação
sem intercorrências. Parto normal a termo. Peso ao nascer:
3.250 g; comprimento: 50 cm. Sem intercorrências neonatais.
Aleitamento materno por um ano. Vacinação em dia.
Desenvolvimento neuropsicomotor normal. Sem antecedentes mórbidos,
inclusive varicela e sarampo. Boas condções de habitação
e higiene. Moram dois adultos e duas crianças em casa de
alvenaria, com quatro cômodos, em zona urbana. Nega contato
com inseticidas. Não tem animais domésticos. Não
faz uso de carne de porco na alimentação.
Antecedentes familiares: Pai com 32 anos, saudável;
mãe com 31 anos, saudável; irmão com 5 anos,
saudável. Nega consangüinidade. Nega neoplasias, diabetes,
tuberculose e doenças congênitas nos familiares. Nega
a ocorrência de casos semelhantes na família.
Exame físico: Criança ativa, em bom estado
geral. Leucocoria e estrabismo do olho direito. Mucosas coradas.
Hidratada. Escleróticas anictéricas. Eupnéica.
Acianótica.
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Pressão arterial: 70 x 50 mmHg
Pulso radial: 118 bpm
Freqüência respiratória: 22
ipm
Temperatura axilar: 36°C
Peso: 12 Kg
Altura: 78 cm
Cabeça e pescoço:
Orofaringe sem alterações. Linfonodos pré-auriculares,
submandibulares e cervicais impalpáveis bilateralmente.
Exame oftalmológico: Leucocoria
no olho direito. Estrabismo convergente.Fundo de olho evidenciando
massa única, volumosa, de cor branca com matiz amarelado,
ocupando a cavidade vítrea do olho direito. Não
se observam hemorragias nem pigmentação. Não
há deformação vascular, mas visualizam-se
vasos passando sobre a massa. Olho esquerdo sem alterações.

Leucocoria e estrabismo do olho direito de M.A.G. |
Tórax: Tórax
simétrico. Murmúrio vesicular universalmente
audível, sem ruídos adventícios. Ritmo
cardíaco regular em dois tempos, bulhas normofonéticas.
Ausência de sopros. Ausência de linfonodos axilares
palpáveis.
Abdômen flácido, indolor
à palpação. Fígado palpável
no rebordo costal direito. Baço impalpável.
Traube livre. Genitália externa sem alterações.
Linfonodos inguinais impalpáveis.
Membros: Membros
sem alterações. |
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A partir da história e do exame clínico, que
hipóteses diagnósticas podem ser formuladas?
» Fibroplasia retrolental
» Catarata congênita
» Granuloma por
Toxocara canis
» Cisticercose
» Doença de Coats
» Retinoblastoma
A fibroplasia retrolental é uma fibrose vitreorretiniana,
com formação de novos vasos, decorrente de hiperoxigenação
de incubadora. Esta hipótese fica afastada, já que
M.A.G. não nasceu prematuramente e não apresentou
intercorrências no período neonatal.
A catarata congênita é uma opacidade do cristalino
que pode acometer criança cuja mãe apresentou rubéola
durante o período gestacional. Considerando a ausência
de intercorrências durante a gravidez e a inexistência
de opacidade do cristalino do olho da criança, ao exame
oftalmológico, esta hipótese também é
afastada.
As hipóteses de cisticercose ocular e granuloma por Toxocara
canis ficam inicialmente afastadas pela ausência de
dados epidemiológicos, como o uso de carne de porco na
alimentação e o contato com cães, respectivamente.
O diagnóstico diferencial entre retinoblastoma e doença
de Coats pode ser difícil. Classicamente, a doença
de Coats acomete adultos jovens, mais freqüentemente do sexo
masculino, e evolui de forma insidiosa, localizando-se normalmente
em um olho. No entanto, pode surgir antes do primeiro ano de vida
e apresentar como primeira manifestação o reflexo
pupilar tal como observado no retinoblastoma. A doença
de Coats é ainda de causa desconhecida, manifestando-se
por distúrbios de desenvolvimento vascular da retina, que,
em uma de suas formas clínicas, apresenta-se como tumor.
O exame do fundo de olho de M.A.G., no entanto, não revelou
alterações vasculares nem sinais de hemorragias
antigas ou recentes, que são comuns na doença de
Coats.
A suspeita diagnóstica mais consistente, portanto, é
a de retinoblastoma.
O retinoblastoma é um tumor primário da neurorretina,
manifestando-se por diversos padrões clínicos, segundo
seu estádio evolutivo. Em aproximadamente 30% dos casos
é bilateral, e 10% dos pacientes apresentam história
familiar da doença. Nestes pacientes, o retinoblastoma
resulta de uma mutação germinativa autossômica
dominante, ou seja, é do tipo hereditário. lsso
é importante no sentido de se fazer acompanhamento oftalmológico
dos irmãos e a orientação genética
do paciente e de seus familiares.
Cabe ressaltar que, desde a primeira vez que a mãe de
M.A.G. procurou atendimento, já havia indicação
de exame neurológico e de fundo de olho: criança
de 2 anos que passa a desenvolver desvio unilateral do olho requer
investigação para afastar doença ocular ou
comprometimento dos nervos oculares.
No estádio em que a criança se apresentou, com
leucocoria, estrabismo e massa intra-ocular volumosa, a hipótese
diagnóstica de retinoblastoma unilateral do olho direito
é obrigatória
Com o diagnóstico clínico efetuado, que
exames complementares estão indicados?
Para avaliar a extensão do tumor e as estruturas oculares
acometidas, foi realizada ultra-sonografia ocular que evidenciou
tumor único, volumoso, que comprometia toda a retina, invadia
a bainha do nervo óptico e avançava para a cavidade
vítrea. Os achados clínicos e o exame ultra-sonográfico
pemitem estadiar o tumor como T3b. O retinoblastoma é classificado
como T3 quando é um tumor que compromete mais de 50% da
retina e/ou compromete além da retina, mas permanece intra-ocular,
e será T3b quando, além disto, comprometer o disco
óptico. O exame clínico afasta comprometimento linfático
das cadeias que poderiam ser acometidas pelo retinoblastoma, sendo
portanto classificado como NO.
O paciente não apresenta clinicamente sinais ou sintomas
sugestivos de metástases à distância. O retinoblastoma,
quando origina metástases, o faz pela circulação
sangüínea e acomete principalmente cérebro,
ossos, fígado, pulmões e medula óssea. Foram
solicitados tomografia computadorizada do cérebro e da
órbita, cintilografia óssea, ultra-sonografia abdominal,
exame do líquido céfalorraquidiano, mielograma e
provas de função hepática e renal. Os resultados
foram normais e permitiram afastar a existência de metástases
(MO).
Com base no exame clínico e nos resultados desses exames,
o diagnóstico é de retinoblastoma em estádio
clínico llb (T3bN0M0). Faz-se, entretanto, necessária
a enucleação, que consiste na ressecção
completa do globo ocular, para a confirmação histopatológica
de retinoblastoma e do estadiamento, e para a seleção
da conduta terapêutica.
A mãe de M.A.G. foi informada pela médica que seu
filho é portador de um tumor maligno e que, tratado corretamente,
a despeito do retardo diagnóstico, tem chance de ficar
curado. Ela não entendeu bem o que lhe foi dito e perguntou
à Dra. Rosa:
D. Júlia: O
que que a senhora chama de retardo diagnóstico?
Dra. Rosa: Estou lhe
dizendo que passou muito tempo entre a primeira vez que a senhora
levou Mário ao médico e o diagnóstico de retinoblastoma.
D. Júlia: Quer
dizer que então o tumor já poderia ter sido descoberto
antes?
Dra. Rosa: Se o médico
que atendeu estivesse alerta para essa possibilidade, certamente
ele teria avaliado melhor o olho de Mário.
D. Júlia: A
senhora não pode imaginar como eu estou me sentido agora...
Dra. Rosa: Quero que
a senhora saiba, dona Júlia, que hoje mesmo estou encaminhando
um relatório para o colega e eu tenho certeza de que, quando
ele o ler, vai pensar em como a senhora pode estar se sentindo e
vai analisar todo este caso.
Os procedimentos terapêuticos e os resultados esperados foram
discutidos com os pais de M.A.G., que concordaram com o tratamento
indicado. M.A.G. foi submetido à enucleação
do olho direito (ver laudo).
Comentários
Com base no exame anátomopatológico, o estadiamento
patológico ficou estabelecido como pT4apN0pM0 estádio
lIIA. lsto significa que o tumor invadiu a estrutura extra-ocular
(T4) e o nervo ótico retrobulbar (T4a). As categorias pNO
e pMO correspondem às categorias NO e MO do estadiamento
clínico. É importante observar que o estadiamento
patológico não correspondeu ao estadiamento clínico,
o que trouxe alterações quanto à conduta terapêutica
programada anteriormente.
| Nome:
M.A.G. |
|
Matrícula:
104 |
| Médico:
M.P. |
Origem:
S.C.I. |
N°
do exame: 008 |
| Material: |
Olho
direito e nervo óptico |
| Localização: |
Órbita
direita |
Exame
macroscópico: |
Globo
ocular completo, ressecado em conjunto com um
segmento do nervo óptico em extensão de
1,5 cm. Aberto, demonstra massa esbranquiçada
que substitui a retina, ocupa toda a cavidade vítrea
e, posteriormente, prolonga-se no nervo óptico. |
Exame
microscópico: |
A
massa descrita é neoplásica maligna, estruturada
por células pequenas, citoplasma reduzido e núcleo
de cromatina densa, sem detalhe de distribuição.
Há formações celulares em estruturas
que configuram rosetas e há grandes áreas
de necrose. O nervo óptico está infiltrado
pela neoplasia, mas a sua margem cirúrgica distal
está livre de comprometimento. |
| Conclusão: |
Retinoblastoma |
| |
CID-O
T 190.5
M 9510/3 |
|
Após a cirurgia, M.A.G. foi submetido à radioterapia
orbitária e à quimioterapia sistêmica. Se o
diagnóstico houvesse sido feito precocemente, M.A.G. poderia
ou não ter perdido o olho ou não ter se submetido
à quimioterapia e à radioterapia e não correria
os riscos dos efeitos tardios destes tratamentos. Recebeu uma prótese
ocular e orientação especializada quanto à
continuidade da reabilitação.
Apesar de o laudo histopatológico mostrar que o tumor
foi ressecado com margem de segurança quanto à infiltração
do nervo óptico, e de o paciente ter recebido o tratamento
adequado, que oferece um prognóstico de 90% de cura, M.A.G.
deverá ser submetido a acompanhamento durante 5 anos, prazo
em que se costuma observar a recidiva do tumor.
A necessidade do controle deve estender-se por mais anos, visto
que crianças curadas de câncer têm risco aumentado
de desenvolverem outros tumores, sendo o risco vinte vezes maior
do que a população em geral, alcançando o
seu máximo dez anos após o primeiro tumor ter sido
diagnosticado.
É importante salientar que, desde que o diagnóstico
de M.A.G. foi feito, seu irmão submete-se também
a exame oftalmológico regular.