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Editorial
Câncer e Velhice no Brasil |
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Nós, os brasileiros, começamos o século XX com
uma expectativa de vida ao nascer de menos de 35 anos, e vamos
terminá-lo com esta expectativa maior do que 70 anos. Em 1990, tínhamos, globalmente, 65,6 anos de expectativa de vida, sendo 62,3 anos para os homens e 69,1 anos para as mulheres, e iniciamos esta década com a seguinte composição etária relativa: 0 - 14 anos = 34,8%; 15-34 anos = 35,5%; 35-64 anos = 24,9% e dos 65 anos em diante = 4,9%. As modificações ocorridas no perfil demográfico brasileiro cursaram, logicamente, com e por causa das alterações verificadas nas nossas taxas de natalidade e mortalidade, ambas significativamente reduzidas através deste século, conforme se pode ver na Tabela 1.
O Gráfico 1 dispõe a proporção de óbitos
por câncer, registrados no Brasil de 1983 a 1992 e ocorridos em
indivíduos, de ambos os sexos, com mais de 65 anos de idade.
Observa-se que a mortalidade mantém uma proporção
que varia de 43% a 47%, ao longo desses 10 anos, o que nos leva a
deduzir que, durante esse mesmo tempo, pessoas com menos de 65 anos
de idade também morreram por câncer, numa
proporção que variou de 57% a 53%.
Em 1992, foram registrados 826.828 atestados de óbito no Brasil,
cujas cinco principais causas de morte por
doença, em ambos os sexos, ficaram assim
distribuídas: Doenças cardiovasculares = 231.558 (28,0%),
Câncer = 87.866 (10,6%), Doenças do aparelho
respiratório = 69.830 (8,4%), Doenças infecciosas =
39.548 (4,7%) e Doenças endócrinas, nutricionais e
metabólicas = 39.462 (4,7%).
Quando se consideram as cinco primeiras localizações
primárias dos tumores que mais mataram brasileiros, em 1992,
são elas as seguintes, respectivamente para os homens e
mulheres: Pulmão, estômago, próstata,
esôfago e medula óssea (leucemias) e Mama, colo uterino,
pulmão, estômago e intestino grosso.
Todo o apresentado até o presente momento são alertas
da gravidade do problema que representa o câncer para o velho e
do quanto se urge direcionar melhor a política de saúde
brasileira, para se adequar o sistema à atualidade do
País e planejá-lo de modo que a sua capacidade
resolutiva acompanhe tanto a demanda crescente de velhos cujo
câncer deixou de ser prevenido até o presente, como a
necessidade de se prevenir gerações subseqüentes
de mais e mais velhos cancerosos.
O exemplo mais palpável e incontestável de como esta
situação se instala e se sustenta ao longo de
décadas é dado com o câncer de pulmão,
que se expressa principalmente na velhice e, nos últimos
tempos, cada vez mais não só entre homens, mas
também entre mulheres: É sabido que a mortalidade por
este tumor, em um país, é diretamente proporcional ao
consumo per capita de cigarros que nele se mede. No Brasil,
como em muitos outros países, este consumo tem sido
sistematicamente progressivo a partir de 1945. Tomando-se a
mortalidade por câncer de pulmão no Rio Grande do Sul,
onde se observam os maiores índices de produção
e consumo per capita de tabaco nacionais, verifica-se que, de
1935 a 1990, as taxas de mortalidade por câncer de
pulmão ascenderam abruptamente a 15/100.000 habitantes, entre
os homens, a partir de 1975, e ultrapassaram 30/100.000 habitantes,
em 1990 (ou seja, respectivamente 30 e 45 anos depois da
explosão da oferta e do consumo de tabaco e derivados no
mercado brasileiro). Tendência semelhante, ainda que com
ângulos menos agudos, vê-se entre as mulheres
gaúchas, cuja taxa foi 5/100.000, em 1980, e quase foi
duplicada, em 1990 (ou seja, respectivamente 20 e 30 anos após
a revolução sexual que se deu nos anos 60 e que
resultou na incorporação da mulher ao mercado de
trabalho e fez com que ela assumisse hábitos e costumes
até então predominantemente masculinos, entre eles, o
tabagismo).
A idade dos brasileiros que morreram de câncer de pulmão,
em 1992, concentrou-se além dos 60 anos.
Neste final de século, a população brasileira
apresenta um aumento substancial de pessoas idosas, ou seja, com 60 e
mais anos, uma vez que esta é a faixa etária que mais
cresce no País, em termos proporcionais. Segundo a
Organização Mundial da Saúde, a
população de velhos, no Brasil, crescerá 16 vezes,
de 1950 a 2025, contra as cinco vezes o aumento que terá a
população nacional, neste mesmo período. Ao final,
teremos 32 milhões de habitantes com 60 anos ou mais.
Dois aspectos merecem ser ressaltados, com relação a
esta projeção: A proporção de velhos mais
do que dobrará, de 1991 (que foi 7,3%) para 2025 (que
será 15%), quando o Brasil alcançará a atual
proporção européia, porém o fará
de forma abrupta, em vez de lenta, como ocorreu na Europa, onde,
mesmo assim, ainda não se conseguiu equacionar
satisfatoriamente o problema da velhice e suas
conseqüências, em termos econômicos, sociais e
sanitários.
As abruptude e grandeza do crescimento proporcional de velhos
brasileiros poderão ser ainda maiores que o acima explicitado,
caso os estados nordestinos mantenham-se na rota desenvolvimentista
atual, que os tem feito os estados brasileiros de maiores
índices médios de crescimento econômico, nos
últimos anos.
Com isto posto, devemos evitar repetir a confusão que se fez
no Brasil, por conta da intensa e contínua
migração populacional para as cidades e o
conseqüente inchamento das metrópoles, e que foi
detectada ao Censo de 1991: Até então, pensava-se que o
Brasil continuava sendo um país de população
essencialmente jovem, ainda em franca explosão
demográfica (ou seja, de mortalidade declinante e
fertilidade alta). Qual não foi a estupefação ao
se verificar que o País já havia entrado na fase de
transição demográfica, em que as altas
taxas de mortalidade e de fertilidade, determinantes de uma
população jovem, convertem-se em baixa taxa de
mortalidade e em taxa de fertilidade gradualmente decrescente.
Talvez, essa confusão explique por que não houve o
planejamento adequado do sistema de saúde brasileiro, que se
caracteriza por contemplar muitíssimas vezes mais as
ações terapêuticas que as preventivas,
concentrando, assim, recursos e problemas no seu nível
terciário, em desarmonia e desequilíbrio com os
níveis primário e secundário, o que traz
conseqüências irreparáveis à vida e à
saúde das pessoas, mormente as que são de risco ou
já portam doenças crônico-degenerativas em fases
iniciais assintomáticas.
E como é o sistema de saúde que pressiona e até
reorienta a formação acadêmica, quando esta foi
adequada, obviamente a incapacidade e o desinteresse profissionais
pela promoção da saúde, prevenção
de doenças, assistência terapêutico-paliativa e
reabilitação passam também a constituir o
círculo vicioso em que, infelizmente, ele e a prática
médica se meteram, mercê que se encontram de um modelo
que não tem conseguido minorar e muito menos solucionar as
nossas formas de adoecer e morrer.
Torna-se conseqüente, assim, que seja o velho (e, principalmente
por causa do câncer do colo uterino, a mulher) quem mais pague o
ônus deste modelo.
Relativamente à velhice, somam-se outros fatores de
importância se não igual, similar: O tratamento
ótimo do câncer do velho continua sendo, no âmbito
mundial e brasileiro, uma incógnita, dado o pouco conhecimento
e literatura específica de que se dispõe sobre a
farmacocinética dos antiblásticos, já que a
maioria dos protocolos clínico-terapêuticos, até
bem pouco tempo atrás, excluía os pacientes com mais
de 65 ou 70 anos de idade, independentemente das suas
condições fisiológicas, por causa da gravidade
dos efeitos colaterais, o que leva à redução de
doses ou subtratamentos. No geral, o estadiamento do tumor e o
encaminhamento do paciente ao centro especializado no tratamento do
câncer costumam ser menos corretos nos velhos do que nos adultos
e nos jovens, sendo comum que muitos velhos tenham diagnóstico
de câncer na fase avançada da doença. Todos esses
aspectos contribuem para que, entre os velhos, a dor devida ao
câncer seja uma ocorrência comum (já que ela
caracteriza, com raríssimas exceções, um quadro
clínico de câncer avançado) e que o seu tratamento
seja, na maioria das vezes, inadequado. Calcula-se que 40% dos pacientes portadores de dor crônica, não cirúrgica, devida ao câncer, dela não se aliviem, por conta de submedicação, o que se detecta especialmente entre pacientes idosos.
Pelo exposto, justifica-se pensar, profunda e urgentemente, sobre como
enfrentar e planejar o enfrentamento do problema que representa e
representará ainda mais o câncer entre a
população idosa do Brasil. Transferir essa
responsabilidade para as próximas gerações
significa sacrificar muito mais brasileiros e comprometer muito mais
o futuro de pelo menos cinco gerações, por que ora
somos responsáveis, que sucederão as cinco
próximas gerações, que viverão as
conseqüências das ações e omissões
das que nos antecederam...
Referências Bibliográficas
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