|
|
Editorial
Incidência e mortalidade por câncer no Brasil |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
O Instituto Nacional de Câncer lançou duas publicações de dados
epidemiológicos: Estimativa da incidência e mortalidade por câncer no
Brasil - 1997, em sua terceira versão anual consecutiva, e O Problema do Câncer
no Brasil, em sua quarta edição. Isto enseja uma transcrição
sumária dos dados e da análise reflexiva sobre a incidência e a mortalidade
por câncer verificados no nosso país.
As taxas de mortalidade das macrorregiões incluem o câncer em diferentes
posições, porém sempre ocupando as primeiras causas de morte, ao lado das
doenças do aparelho circulatório, causas externas, doenças do aparelho
respiratório, afecções do período perinatal e doenças
infecciosas e parasitárias.
Importa ressaltar que, à exceção da Região Sul, as causas externas
foram, em 1994, o segundo maior grupo de causas de morte, no Brasil, e que, na Região
Norte, as afecções perinatais constituíram, naquele mesmo
ano, a terceira causa de morte por doença, superando as doenças
infecto-parasitárias e as do aparelho respiratório.
Pelos últimos dados disponíveis, o câncer, no Brasil, se constitui na
segunda causa de morte por doença, tendo sido os neoplasmas responsáveis, em
1994, por 10,86% dos 887.594 óbitos registrados. Dos óbitos por neoplasias,
53,81% ocorreram entre os homens e 46,05%, entre as mulheres. Somente na Região
Nordeste, as neoplasias representam a terceira causa de morte por doença, respondendo
por 6,34% dos óbitos atestados, mesmo assim ficando apenas 0,02 ponto percentual
aquém das doenças infecciosas e parasitárias. Nas demais regiões,
os neoplasmas seguem-se às doenças cardiovasculares, e a sua proporcionalidade
aumenta à medida que se desloca para o sul: 7,83% (Região Norte), 9,89%
(Região Centro-Oeste), 11,93% (Região Sudeste) e 15,9% (Região Sul).
Na Tabela 1 está retratada a mortalidade proporcional por câncer, entre todos os
óbitos registrados no Brasil de 1989 a 1994, distribuída por
localização do tumor primário. Evidencia-se uma diminuição
progressiva, em maior ou menor grau, da mortalidade proporcional devida a leucemias e aos
cânceres de esôfago, estômago, laringe e colo uterino, e o aumento,
também progressivo e em maior ou menor grau, da proporcionalidade dos cânceres de
cólon, pâncreas, pulmão, reto, mama e próstata.
Utilizando-se de um parâmetro mais fidedigno, o coeficiente ajustado por idade,
vê-se que a mortalidade por câncer do colo uterino no período de 1980 a
1994 (Figura 1) é quase estacionária, e a por câncer de estômago,
descendente. Já a devida aos cânceres de mama, pulmão e próstata
é ascendente.
Figura 1 - Coeficientes ajustados por idade da mortalidade por neoplasias selecionadas,
distribuídas por localização primária e ano, ocorrida no Brasil, de
1980 a 1994.
Fontes: Ministério da Saúde/DataSus - Home Page; IBGE.
Estes coeficientes traçam uma tendência firmemente ascendente com o avanço
da faixa etária, aumentando abrupta e progressivamente a partir dos 30 anos de idade.
Isto permite concluir que, se o câncer mata muitos velhos, também o faz muito
entre os adultos jovens no Brasil.
As nossas taxas de incidência de câncer, obtidas dos cinco registros de base
populacional em atividade, também revelam-se regionalmente bastante díspares:
Porto Alegre-RS e Campinas-SP apresentam as maiores taxas de incidência de todas as
formas de câncer. Quando comparadas por sexo, observa-se que Porto Alegre-RS e
Belém-PA acompanham a tendência internacional de uma maior incidência do
câncer no sexo masculino. Entretanto, em Campinas-SP, Fortaleza-CE e Goiânia-GO,
encontra-se uma inversão nesse padrão.
Os cânceres de estômago, pulmão e próstata alternam-se nas três
primeiras posições entre os homens. Nas mulheres, essa alternância se
dá entre as neoplasias do colo uterino e de mama: o primeiro se destaca nos registros
de Belém-PA e Fortaleza-CE e o segundo, nas demais cidades anteriormente citadas. Em
todas as cinco cidades, porém, o câncer de estômago ocupa, isoladamente, o
terceiro lugar de maior incidência.
Considerando-se o sexo masculino, o câncer de estômago é o mais incidente em
Belém-PA e Fortaleza-CE, enquanto que o de pulmão se destaca em Porto Alegre-RS e
o de próstata, em Campinas-SP e Goiânia-GO.
O câncer de pele, que não o melanoma cutâneo, apresenta as maiores taxas de
incidência em Goiânia-GO (117,33/100.000 homens e 84,06/100.000 mulheres) e as
menores em Campinas-SP (25,15/100.000 homens e 14,84/100.000 mulheres).
Analisando-se os dados mais recentemente divulgados por registros de câncer de base
hospitalar brasileiros, observa-se que, entre as dez localizações mais
freqüentes, o colo uterino, a mama feminina, pele, estômago, próstata,
linfonodos e esôfago são locais primários encontrados nos registros
considerados. As três localizações restantes variam em topografia e em
classificação. Pode-se observar, também, que o percentual de casos
não estadiáveis ou de estádio desconhecido é uma constante e que,
dos casos estadiados, é alta a proporção daqueles em estádios
avançados da doença (III e IV).
Considerando-se que localizações primárias de tumores freqüentes
nesses registros, como o colo do útero, a mama, a pele, a boca, a tiróide, o
olho, o corpo do útero e a próstata são de fácil acesso ao exame
físico e dispensam ambiente e equipamentos sofisticados para serem examinadas, e que,
como o pulmão, o esôfago, o estômago e os ossos, outras
localizações freqüentes, o podem ser por meio de equipamentos e tecnologia
já há muito incorporados à prática médica brasileira, os
dados dos registros hospitalares sugerem uma deficiência considerável no
diagnóstico do câncer, feito nos pacientes que são encaminhados aos
hospitais de tratamento especializado.
Dados do registro hospitalar do Hospital do Câncer, do Instituto Nacional de Câncer,
demonstram, por exemplo, que mais de 70% dos casos de cânceres de boca, mama e colo
uterino, locais de fácil acesso ao auto-exame e ao exame físico, e que contam com
critérios, técnicas e métodos de detecção já muito
bem estabelecidos, lá são atendidos em estádios avançados. Visto
que quanto mais avançado o tumor pior será o prognóstico do paciente,
pode-se imaginar o quanto a sobrevida destes é prejudicada por conta da falta de
diagnóstico em fases mais iniciais, ou menos avançadas.
Nem sempre os dados de base de mortalidade, de população ou de hospitais
são superponíveis, seja por que um tumor é pouco incidente, mas mortal, e
vice-versa, seja porque os pacientes enfrentam diferentes graus de dificuldade de acesso aos
serviços especializados. Registre-se, por exemplo, que a freqüência relativa
dos cânceres de estômago e próstata se dá, nos registros hospitalares,
em percentuais mais baixos do que os presumíveis, tendo-se em vista as suas altas taxas
de incidência e de mortalidade. Isto pode significar que os dados de pacientes atendidos
e tratados em hospitais gerais não venham sendo adequadamente registrados e analisados,
mormente se eles são atendidos em cidades que não dispõem de registros de
base populacional, embora possam ser incluídos entre os óbitos registrados, na
eventualidade da sua morte.
Os dados de projeção, mesmo que impliquem uma pequena imprecisão, indicam,
por sua vez, que a incidência e a mortalidade por câncer no Brasil continuam sendo
altas, estimando-se que, em 1997, sejam diagnosticados 248.355 casos novos e ocorram 97.705
óbitos.
As informações aqui transcritas apontam para três necessidades
básicas da prática médica e oncológica no Brasil: buscar a
prevenção e um diagnóstico mais inicial do câncer; disseminar o
conhecimento e a prática de cuidados paliativos; e incorporar sistemas uniformes e
informatizados de registro de dados hospitalares.
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||