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Editorial
A mortalidade por câncer de mama no Brasil |
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Em 1998, no Brasil, o câncer de mama acometerá 32.695 mulheres, representando 12,15% dos 269.000 casos de câncer esperados para 1998, e será responsável por 6,6% (7.165 de 107.950) dos óbitos por câncer estimados para este ano.
De imediato e a grosso modo, pela diferença entre esses percentuais dentro de um mesmo ano, pode-se depreender que o câncer de mama é uma doença controlável, o que é já reconhecido no mundo inteiro.
Entre nós, verifica-se que a incidência do câncer de mama varia de cidade para cidade; porém, mesmo com taxas que vão de 29,50 (Belém - PA) a 66,12 (Porto Alegre - RS), ele sempre se coloca em primeiro ou segundo lugar, em todas elas, alternando-se com o câncer do colo uterino.
É por isso que o Brasil, comparativamente a outros países, ocupa diferentes posições, quando se consideram as taxas de incidência do câncer de mama: entre as mais altas, como em Porto Alegre (atrás somente dos EUA, Canadá, Dinamarca e França), a intermediárias, como em Belém (a frente de países como o Peru e Japão) -, porém todas acima das de países como a Argélia, que se inclui como um dos que apresentam baixas taxas de incidência do câncer mamário (6,4/100.000 mulheres).
De 1986 a 1994, cerca da metade dos casos de câncer mamário atendidos no Hospital do Câncer, do Instituto Nacional de Câncer, encontrava-se em estágios avançados. Isto também se verifica, de forma igual ou agravada, em outros registros hospitalares, demonstrando-se que o diagnóstico tardio é um problema nacional, não restrito ao câncer de mama, e denota o baixo grau de diagnóstico clínico feito no sistema de saúde brasileiro.
Indubitavelmente, os números e a experiência mostram as vantagens, ou desvantagens, de se tratar o câncer de mama em estágios iniciais, ou avançados: A sobrevida das mulheres, contada em anos, é inversamente proporcional não só ao estágio como ao custo do tratamento. E a sobrevida é o mais utilizado parâmetro de avaliação de resultados, na área oncológica, inclusive epidemiológica, para o que as taxas de mortalidade, em séries históricas, são da mais alta relevância analítica.
Em 1995, o estudo da International Agency for Research on Cancer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, já havia desconcertado a comunidade médica ao mostrar que a mortalidade global por câncer, entre 800.000 pacientes europeus, não se vinha alterando e que, embora a sobrevida relativa em cinco anos viesse melhorando no caso de alguns tumores, o mesmo não vinha acontecendo com o de outros. Também o estudo mostrou como as diferenças observadas refletiam a diversidade cultural e sanitária entre os 11 países europeus incluídos, notadamente as relacionadas com a expectativa de vida e a disponibilidade e acesso a bons e organizados serviços de saúde.
Quando se analisam os cânceres comuns entre os homens, nos Estados Unidos, verifica-se que, de 1930 a 1992, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão apresenta uma elevação abrupta e progressiva, parecendo tender à estabilização, nos anos noventa; a por câncer de próstata e pâncreas, uma elevação lenta, em plateau; a por câncer de intestino grosso e de fígado, uma tendência à queda; e a por câncer de estômago, uma evidente diminuição.
Já relativamente às mulheres estadunidenses, naquele mesmo período de tempo, verifica-se queda da mortalidade por câncer de intestino grosso, útero e estômago; elevação abrupta da mortalidade por câncer de pulmão, a partir dos anos sessenta; tendência à estabilização da mortalidade por câncer de ovário e pâncreas; e mortalidade por câncer de mama praticamente estável.
Já quando consideram-se as maiores taxas de mortalidade por câncer, no Brasil (de mama, colo uterino, próstata, pulmão, estômago, esôfago, intestino e pâncreas e leucemia), numa série histórica de 15 anos, apenas a do câncer de estômago parece mostrar uma tendência à queda. Ou seja, exceto pela do câncer de estômago, as taxas brasileiras de mortalidade por câncer ou são estáveis ou têm tendência à elevação - demonstrando que pouco se tem conseguido interferir na realidade nacional, principalmente com relação aos tumores que podem ser prevenidos ou diagnosticados precocemente.
Em um exercício de comparação, tome-se como 100% a taxa de mortalidade por câncer entre homens e mulheres, observada nos Estados Unidos, em 1970, e acompanhe-se o seu comportamento, separadamente por sexo e por idade, a partir de então, até 1994: ela é francamente descendente entre ambos os sexos, nas idades até 54 anos, dando-se ao revés, após os 55 anos .
Uma das conclusões a que nos remetem estes dados é que, lá, os resultados dos tratamentos já estão interferindo na realidade, evidenciado pelo desvio da mortalidade por câncer entre homens e mulheres, que estão deixando de morrer antes dos 55 anos e morrendo mais, quando acima desta idade, isto é, estão sobrevivendo mais ao câncer.
Partindo-se do mesmo princípio (tomando-se como 100% a taxa de mortalidade por câncer calculada para o Brasil, em 1980), observe-se, agora, , como se vem desenvolvendo a mortalidade por câncer, entre homens e mulheres brasileiros, deste ano até 1995. Certamente, a pouca variabilidade dos percentuais de mortalidade corresponde à persistência de diagnósticos em fase avançada dos tumores, independentemente do sexo e da faixa etária dos doentes.
Tome-se, agora, apenas o câncer de mama, nos Estados Unidos : a taxa de mortalidade, considerando-se todas as idades, é estável, comparando-se às de 1970 e 1993, porém isto se dá pela maior mortalidade entre mulheres com mais de 55 anos, confirmando-se, assim, a obtenção de aumento da sobrevida das que têm menos do que esta idade.
Porém, deve-se reconhecer que a busca do diagnóstico do câncer em fase mais inicial, paralelamente à incorporação e adoção de condutas terapêuticas sempre atualizadas, poderá acelerar sobremaneira o passo do Brasil no sentido de aumentar e melhorar a sobrevida das nossas mulheres com câncer de mama.
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