Vol.44 n° 2


III Congresso de Psico-Oncologia, realizado nos dias 30, 1, 2 de abril de 1998

Enfoque principal: Saúde e Doença no Terceiro Milênio - a construção de um novo Paradigma

O III Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia tratou do impacto conseqüente à difusão de um novo paradigma na saúde: a integralidade da atenção ao paciente com câncer. Criativo e instigante, o encontro realizado no final do mês de abril passado em Goiânia, teve um caráter interdisciplinar e, longe de restringir-se às categorias profissionais que atuam diretamente na área da saúde foi além: contou com a presença de teólogos, pacientes e antropólogos. Considerada uma ciência recente, a Psico-Oncologia tem comom proposta oferecer assistência psicológica ao indivíduo portador de câncer em todas as suas etapas. A novidade decorre, no entanto, no modo pelo qual o problema do portador de câncer é apresentado, pondo em foco diferentes aspectos, abordagens e ângulos sob os quais os processos de saúde e de adoecimento podem (e devem) ser analisados. De acordo com o mais recente conceito que a Organização Mundial de Saúde formulou - que compreende a saúde como bem-estar total, e não apenas a inexistência de doenças -, os temas foram apresentados a partir de uma ótica especial e inovadora: a percepção do câncer como fenômeno total, ou seja, um modo de conhecimento que integre as dimensões sociais, corporais e, sobretudo, espirituais do indivíduo. Dessa forma a temática da espiritualidade enfatizou um esfera que não deve ser ignorada na condução do processo terapêutico, o que significa, até certo ponto, o deslocamento de uma visão mecanicista da saúde - advinda do fato de ter sido constituída a partir de critérios cartesianos - para uma noção de complementariedade entre procedimentos, ainda que de natureza distinta, o que não deixa de apresentar conflitos. Mas, a grande virtude desse congresso foi a de oferecer um panorama das novas pesquisas na área de Psiconeuroimunologia, uma disciplina que surgiu há pouco menos de 20 anos nos Estados Unidos, por médicos da Rochester University, cuja tônica consiste justamente em correlacionar variáveis psicológicas, sociais, biológicas, partindo do entendimento de que o ser humano e seus sistemas reguladores são altamente complexos sendo necessário, portano, contextualizar o significado da saúde e do adoecimento. Nesse sentido, a tarefa mais desafiante anunciada no debate foi a da integração entre corpo e mente, psicologia e medicina, neurologia e imunologia; finalmente, a percepção do câncer em sua totalidade foi colocada na agenda para o próximo milênio, e foi em torno dela que os participantes do III Congresso de Psico-Oncologia formularam suas questões, seus impasses e limites para curar e tratar os indivíduos portadores de câncer.


Fátima R. Cecchetto
Assistente Social do INCA e Doutoranda em Política, Planejamento e Administração em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Rio de Janeiro


Revista Brasileira de Cancerologia - Volume 44 n°2 Abr/Mai/Jun 1998