Vol.48 n° 2

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Editorial

Estimativas sobre a Incidência e Mortalidade por Câncer no Brasil - 2002 / Statistics on Cancer in Brazil in 2002

A cada ano que passa, o câncer se configura e se consolida como um problema de saúde pública de dimensões nacionais. Daí, o importante papel da informação oportuna, que subsidia a tomada de decisões e o estabelecimento de diretrizes.

Informações sobre as neoplasias malignas, em termos de magnitude, distribuição geográfica e temporal, e de acordo com as localizações tumorais, constituem a base fundamental de um sistema de vigilância do câncer.

Um sistema de vigilância necessita basicamente da estruturação do sistema de informações sobre o câncer, com ênfase na organização e funcionamento dos centros que coletam dados sobre a incidência da doença - os Registros de Câncer.

Nos últimos cinco anos, o Brasil obteve um avanço considerável, no que tange às fontes de informações sobre morbidade por câncer, acompanhando o progresso já observado no sistema de informações sobre mortalidade

As estimativas para o ano de 2002 sobre incidência e mortalidade por câncer, como parte do sistema de vigilância do câncer, fornece um conjunto de informações que permite um melhor entendimento do cenário brasileiro, bem como dá subsídios para o planejamento de ações em nível, central, estadual e municipal, sob a ótica da prevenção e controle.

Estima-se que, no ano de 2002, haverá 337.535 casos novos e 122.600 óbitos por câncer, em todo o Brasil. Nos homens, esperam-se 165.895 (49%) casos novos e 66.060 (54%) óbitos, enquanto que, nas mulheres, estimam-se 171.640 (51%) casos e 56.540 (46%) óbitos. Observa-se que, apesar do número maior de casos novos entre as mulheres, a mortalidade por câncer é menor entre elas do que entre os homens.

O principal câncer a acometer a população brasileira será o de pele, do tipo não melanótico, com 62.190 casos, seguido por 36.090 casos novos de neoplasia maligna da mama feminina, 25.600 casos novos de neoplasia maligna da próstata, 21.425 casos novos de neoplasia maligna de pulmão e 20.420 casos de neoplasia maligna do estômago.

Quando se analisam as neoplasias malignas segundo o sexo, observa-se que as maiores incidências, dadas em taxas brutas de casos por 100 mil habitantes, ocorrerão nas seguintes localizações primárias, entre os homens: 1º) pele (não melanoma) - 36,57/100.000; 2º) próstata - 29,76/100.000; 3º) pulmão - 17,45/100.000; e 4º) estômago - 16,14/100.000. Já entre as mulheres, as localizações primárias distribuem-se da seguinte forma: 1º) mama - 40,66/100.000; 2º) pele (não melanoma) - 34,56/100.000; 3º) colo do útero - 19,82/100.000; e 4º) cólon e reto - 11,04/100.000.

A análise da mortalidade mostra que, em 2002, o câncer de pulmão (com taxa bruta de 12,99/100.000 habitantes) será a primeira causa de morte por câncer no sexo masculino, seguido do câncer da próstata (9,14/100.000), do estômago (8,47/100.000), do esôfago (4,94/100.000) e do cólon e reto (4,10/100.000). Por seu lado, o câncer da mama feminina (10,25/100.000) manter-se-á como a primeira causa de morte por câncer entre as mulheres, seguido pelo câncer de pulmão (5,29/100.000), do cólon e reto (4,59/100.000), do colo do útero (4,49/100.000) e do estômago (4,24/100.000).

As regiões geográficas do Brasil, por sua heterogeneidade cultural, demográfica, sócio-econômica e política, têm suas populações submetidas a fatores de risco diferentes. Também são diferentes nas diversas regiões a qualidade da assistência prestada, a capacidade diagnóstica e a qualidade das informações fornecidas. Por isso, o quadro das principais neoplasias também difere regionalmente, muitas vezes refletindo o quadro da desigualdade observado no país.

Na Região Norte, estima-se para 2002 que os tumores mais incidentes entre homens serão de pele - não melanoma (8,3/100.000) e do estômago (7,8/100.000). Entre as mulheres, o maior número de casos deverá ser de neoplasia maligna do colo do útero (16,8/100.000), seguido da neoplasia maligna da mama (6,7/100.000). Com relação à mortalidade, observa-se que a maior mortalidade entre homens será atribuída ao câncer de pulmão (5,5/100.000), seguido pelo câncer do estômago (4,8/100.000). Nas mulheres, o maior número de óbitos será devido ao câncer do colo do útero (5,5/100.000) seguido do câncer de mama (2,8/100.000). A Tabela 1 mostra os principais tipos de câncer, distribuídos por casos novos e óbitos, que serão encontrados na Região Norte. Chama atenção a alta taxa de incidência e mortalidade por câncer do colo do útero, e as altas taxas de câncer do estômago e de câncer de pulmão, entre homens.

Tabela 1. Estimativas para o ano 2002 das taxas brutas de incidência e mortalidade por 100.000 habitantes e segundo a localização primária do câncer - Região Norte
Localização Primária
Neolplasia malígna
Casos Novos
Óbitos
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Pele não Melanoma
8,3
6,2
0,2
0,2
Mama feminina
 
6,7
 
2,8
Traquéia, Brônquio e Pulmão
5,4
2,0
5,5
2,6
Estômago
7,8
3,3
4,8
2,8
Próstata
4,7
 
3,6
 
Colo do Útero
 
16,8
 
4,6
Cólon e Reto
1,2
2,0
0,8
1,3
Esôfago
1,1
0,2
0,9
0,3
Leucemias
1,4
1,2
1,5
1,3
Boca
2,3
1,6
0,8
0,3
Pele Melanoma
0,4
0,1
0,2
0,1
Outras localizações
19,9
13,9
12,0
12,0
Total
53,1
55,3
31,4
29,7
Fonte: INCA/MS - 2002

A Região Nordeste apresenta como principais tumores incidentes no sexo masculino o câncer da próstata (16,7/100.000) e o câncer não melanótico de pele (10,1/100.000). Com relação à mortalidade, também o câncer da próstata (5,8/100.000) apresenta o maior número de óbitos, seguido pelo câncer de pulmão (4,8/100.000). Nas mulheres, a maior incidência encontra-se no câncer de mama (19,9/100.000), acompanhado pelo câncer do colo do útero (15,4/100.000). A mortalidade apresenta os mesmos tumores como principais, sendo as taxas brutas estimadas de 4,9/100.000 e 3,4/100.000, respectivamente. A Tabela 2 mostra os principais tipos de câncer, também distribuídos por casos novos e óbitos, que foram estimados para 2002, na Região Nordeste. A análise da tabela revela que os tumores do estômago ainda terão incidência elevada entre os homens nordestinos, assim como os tumores do colo do útero entre as mulheres dessa Região, o que pode significar que, embora haja melhoria da capacidade diagnóstica, evidenciada pelas maiores taxas de câncer de próstata e de mama, persistem ainda de forma significativa aqueles tumores que podem ser associados ao baixo nível sócio-econômico e a um menor acesso a assistência de qualidade.

Já a Região Centro-Oeste apresentará como principais tumores incidentes entre homens a neoplasia maligna não melanótica de pele (52,3/100.000) e a neoplasia maligna da próstata (31,7/100.000). Entre as mulheres, as maiores incidências encontradas serão as do câncer não melanótico de pele (62,1/100.000) e do câncer da mama feminina (38,0/100.000). Quanto à mortalidade entre os homens, os principais tumores serão o câncer de pulmão (9,8/100.000) e o câncer da próstata (8,0/100.000). Enquanto que os tumores de maior mortalidade entre as mulheres serão o câncer de mama (16,25/100.000) e o câncer de colo do útero (7,2/4100.000). A Tabela 3 mostra os principais tipos de câncer, igualmente distribuídos por casos novos e óbitos, que deverão ser encontrados na Região Centro-Oeste. Nesta Região, também encontra-se a dualidade de estarem apresentados como tumores mais incidentes aqueles associados a uma assistência de melhor qualidade e capacidade diagnóstica (as neoplasias malignas da próstata e da mama feminina) e, ao mesmo tempo, apresentarem-se com taxas expressivas os mais relacionados com um baixo nível sócio-econômico, tais como as neoplasias malignas do estômago e do colo do útero.

Por seu lado, na Região Sudeste estima-se que os tumores mais incidentes para o sexo masculino serão a neoplasia maligna não melanótica de pele (52,0/100.000) e o câncer da próstata (43,4/100.000). Com relação à mortalidade, o câncer de pulmão (16,2/100.000) e o câncer da próstata (11,5/100.000) deverão ser os de maior número de óbitos. Quanto à população feminina, espera-se que o maior número de casos novos ocorram por conta das neoplasias malignas de mama (62,4/100.000) e não melanótica de pele (48,0/100.000). No que diz respeito à mortalidade por câncer, deverá ocorrer um maior número de óbitos por neoplasias malignas de mama (14,3/100.000) e do cólon e reto (6,6/100.000). A Tabela 4 mostra os principais tipos de câncer, mais uma vez também distribuídos por casos novos e óbitos, que se estimam para Região Sudeste, em 2002. A análise da tabela mostra que os tumores mais freqüentes são aqueles relacionados com a urbanização, acesso a serviços de saúde, boa qualidade da assistência prestada e melhores níveis sócio-econômicos. Chama a atenção as altas taxas (tanto de incidência quanto de mortalidade) esperadas para os tumores da próstata e de pulmão, no sexo masculino. A mesma observação vale para o sexo feminino, no que diz respeito a neoplasia maligna de mama. Vale também ressaltar a segunda maior taxa bruta de mortalidade esperada para as mulheres dessa Região, por câncer de cólon e reto.

Tabela 2. Estimativas para o ano 2002 das taxas brutas de incidência e mortalidade por 100.000 habitantes e segundo a localização primária do câncer - Região Nordeste.
Localização Primária
Neolplasia malígna
Casos Novos
Óbitos
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Pele não Melanoma
10,1
10,6
0,3
0,2
Mama feminina
 
19,9
 
5,0
Traquéia, Brônquio e Pulmão
5,1
2,2
4,8
2,3
Estômago
6,7
2,9
4,0
2,3
Próstata
16,7
 
5,8
 
Colo do Útero
 
15,4
 
3,4
Cólon e Reto
2,8
3,1
1,2
1,6
Esôfago
1,8
0,8
1,7
0,6
Leucemias
3,1
2,1
1,9
1,4
Boca
3,5
1,7
1,3
0,5
Pele Melanoma
0,4
0,4
0,2
0,1
Outras localizações
23,8
26,2
15,3
17,2
Total
74,2
85,8
36,6
74,2
Fonte: INCA/MS - 2002

Tabela 3. Estimativas para o ano 2002 das taxas brutas de incidência e mortalidade por 100.000 habitantes e segundo a localização primária do câncer - Região Centro-Oeste.
Localização Primária
Neolplasia malígna
Casos Novos
Óbitos
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Pele não Melanoma
52,3
62,1
0,6
0,3
Mama feminina
 
38,0
 
7,2
Traquéia, Brônquio e Pulmão
10,2
6,6
9,8
4,9
Estômago
15,2
7,2
6,9
3,0
Próstata
31,7
 
8,0
 
Colo do Útero
 
29,6
 
5,1
Cólon e Reto
10,7
10,8
2,9
3,0
Esôfago
7,0
2,3
3,2
1,1
Leucemias
4,7
3,3
2,5
2,1
Boca
4,0
1,3
2,0
0,5
Pele Melanoma
2,2
1,1
0,4
0,3
Outras localizações
60,3
37,6
25,1
22,7
Total
198,2
199,8
61,8
50,8
Fonte: INCA/MS - 2002.

Tabela 4. Estimativas para o ano 2002 das taxas brutas de incidência e mortalidade por 100.000 habitantes e segundo a localização primária do câncer - Região Sudeste.
Localização Primária
Neolplasia malígna
Casos Novos
Óbitos
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Pele não Melanoma
52,0
48,0
0,6
0,4
Mama feminina
 
62,4
 
14,4
Traquéia, Brônquio e Pulmão
24,5
10,2
16,2
6,4
Estômago
22,6
10,8
11,1
5,4
Próstata
43,4
 
11,6
 
Colo do Útero
 
21,8
 
4,4
Cólon e Reto
16,7
17,7
6,0
6,6
Esôfago
10,8
3,4
6,3
1,6
Leucemias
6,6
5,2
3,3
2,8
Boca
15,6
5,1
4,7
1,0
Pele Melanoma
3,1
3,3
0,9
0,6
Outras localizações
90,8
99,8
38,6
37,5
Total
286,2
287,9
99,4
81,3
Fonte: INCA/MS - 2002.

Os tumores mais incidentes na Região Sul, entre os homens, deverão ser o câncer não melanótico de pele (50,2/100.000) e o câncer de pulmão (30,5/100.000). Entre as mulheres, as maiores incidências serão a neoplasia maligna não melanótica de pele (42,7/100.000) e a neoplasia maligna de mama (35,5/100.000). O câncer de pulmão (24,6/100.000) apresentará a maior mortalidade entre homens, seguido do câncer da próstata (12,1/100.000). As mulheres apresentarão uma maior mortalidade por neoplasia maligna de mama (35,5/100.00), seguida da neoplasia maligna de pulmão (9,2/100.000). A Tabela 5 mostra os principais tipos de câncer, mais uma vez distribuídos por casos novos e óbitos, que estimados para 2002, na Região Sul. Pela análise da tabela, percebe-se que as taxas brutas de incidência e mortalidade por câncer de pulmão, entre os homens, são as mais altas do Brasil e o Sul é a única Região em que este tumor figura como a segunda causa de morte por neoplasia entre as mulheres.


Tabela 5. Estimativas para o ano 2002 das taxas brutas de incidência e mortalidade por 100.000 habitantes e segundo localização primária do câncer - Região Sul.
Localização Primária
Neolplasia malígna
Casos Novos
Óbitos
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Pele não Melanoma
50,2
42,7
0,8
0,5
Mama feminina
 
35,5
 
13,7
Traquéia, Brônquio e Pulmão
30,5
10,9
24,6
9,2
Estômago
20,4
8,0
12,2
5,7
Próstata
27,8
 
12,1
 
Colo do Útero
 
19,6
 
6,5
Cólon e Reto
13,1
11,4
6,4
6,8
Esôfago
13,5
4,7
10,1
3,0
Leucemias
5,0
4,3
3,7
3,0
Boca
11,3
2,5
4,2
0,9
Pele Melanoma
0,6
0,6
1,6
1,0
Outras localizações
50,5
51,7
44,0
40,0
Total
222,7
192,0
119,7
90,6
Fonte: INCA/MS - 2002.

Apesar de se dispor de um conjunto de informações que ainda pode estar sendo influenciado pela heterogeneidade da qualidade da informação, da qualidade da assistência prestada, do nível da capacidade diagnóstica e do grau de acesso aos serviços de saúde, atualmente já é possível visualizar a distribuição das principais neoplasias malignas nas diversas regiões do Brasil. Este cenário permite uma melhor alocação dos esforços e recursos, para melhor promover a prevenção e o controle do câncer no nosso país - diretriz que vem norteando as ações do Ministério da Saúde nos últimos quatro anos.

Porém, um novo desafio se soma: Que a pesquisa epidemiológica se fortifique no Brasil, para que se confirmem, ou não, as supostas causas das disparidades regionais e se aponte melhor o caminho a se seguir, no sentido de transformar a realidade da incidência e mortalidade por câncer que se vem acompanhando ano a ano.



Jacob Kligerman
Diretor do Instituto Nacional de Câncer
Ministério da Saúde

e-mail: kligerman@inca.gov.br ou kligerman@inca.gov.br

Revista Brasileira de Cancerologia - Volume 48 n°2 Abr/Mai/Jun 2002