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Bastam cerca de R$ 30 mil em estratégias pró-tabagismo para que uma pessoa morra no Brasil

Informação é de pesquisa do INCA, apresentada durante webinar em comemoração ao Dia Nacional de Combate ao Fumo

Publicado: 27/08/2020 | 15h47
Última modificação: 31/08/2020 | 11h12

A cada R$ 32,3 mil gastos com as estratégias da indústria tabageira para bloquear políticas públicas de redução do tabagismo, um brasileiro morre de doenças relacionadas ao tabaco. A informação foi divulgada quinta-feira, 27, durante o seminário virtual (webinar) "A importância do Programa Nacional de Controle de Tabagismo e as interferências da indústria do tabaco" em comemoração ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, promovido pelo INCA. Os dados constam da pesquisa Interferência da Indústria do Tabaco no Brasil: a Necessidade do Ajuste de Contas. O estudo mostrou que o gasto com tratamento de doenças derivadas do tabaco é quase duas vezes superior (1,93) ao dinheiro investido em marketing pela indústria do produto.

Para um dos autores da pesquisa, publicada na Revista Brasileira de Cancerologia, André Szklo, da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA, a indústria do tabaco usa estratégias de marketing para manipular a opinião e o gosto dos brasileiros, além de intervir contra políticas públicas que tentam reduzir o consumo de cigarros e seus derivados no País. 

O tabagismo é responsável por mais de 8 milhões de mortes anuais no mundo, com estimados 7 milhões resultados direto do consumo do tabaco; enquanto outras 1,2 milhão de pessoas morrem em decorrência do fumo passivo. Só no Brasil, são 157 mil mortes por ano. O custo anual para a saúde pública nacional é de R$ 57 bilhões (contra 13 bilhões em impostos recolhidos pela indústria). Apesar dos avanços na política antitabaco, ainda existem cerca de 20 milhões de fumantes no País.

O estudo do INCA se baseou em dados sobre o comportamento do fumante brasileiro provenientes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) e da Secretaria da Receita Federal, além de outros artigos acadêmicos. 

A metodologia desenvolvida na pesquisa foi capaz de estabelecer um parâmetro de aferição dos resultados negativos para o setor saúde, gerado pelo investimento em marketing da indústria do tabaco: constatou-se o crescimento de práticas ilegais de publicidade, propaganda e patrocínio em eventos musicais e por meio das redes sociais com o objetivo de atrair, principalmente, o público jovem para o uso do cigarro. 

Para os pesquisadores, além de buscar ressarcimento pelo dano causado pela indústria do tabaco, que poderia financiar tratamentos e programas de saúde, é fundamental medir a responsabilidade dos que violam leis antitabagismo. Isso auxiliaria iniciativas do governo na busca por compensação dos gastos públicos e privados associados ao tratamento de pacientes e aos programas de cessação de fumar. 

Szklo lembrou que há uma série de projetos em discussão no Congresso Nacional que reduzem o poder da indústria tabageira no momento em que se discute uma reforma tributária. Ele defende que se garanta um aumento na carga tributária dos produtos derivados do tabaco, “uma vez que isso é fundamental para aumentar o preço final do cigarro, de forma que a gente tenha um impacto enorme na redução da população de fumantes”. 

A velha e a nova pandemias 
O tabagismo também é considerado uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde. E há evidências de que fumar potencializa o risco do agravamento da Covid-19. Por isso mesmo, Vera Borges, da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco do INCA, considera que esse é mais um motivo para deixar de fumar. “Neste momento, há um risco aumentado [de ser infectado pelo novo coronavírus] para quem fuma: o fumante leva o cigarro até a boca, isso aumenta o risco de contaminação. Além disso, por ele ter o sistema respiratório mais comprometido por conta das toxinas, corre o risco de, em caso de infecção pelo coronavírus, desenvolver a forma mais grave [da doença], que pode ser fatal”, disse ela durante o painel  “A Importância da Política Nacional de Controle do Tabagismo”, quando foram apresentados ainda vídeos de apoio à cessão ao fumo. 

A diretora do INCA, Ana Cristina Pinho, que introduziu o evento, lembrou que “mesmo diante da nova pandemia, temos a velha e conhecida pandemia a tratar: o tabagismo”. Diogo Alves, representante da Organização Pan-americana da Saúde, disse que datas como a o Dia Nacional de Combate ao Fumo são importantes para conscientizar a população. 

O debate foi apresentado por Andreia Reis, chefe da Divisão de Controle do Tabagismo do INCA, e mediado pela assessora técnica de Controle do Tabaco da International Union Against Tuberculosis and Lung Diseases, Cristiane Vianna. 

Todo o debate está disponível na TV INCA

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