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Cuidados com mamas devem ser o ano inteiro e não apenas em outubro, enfatiza INCA

É preciso ainda atenção às pessoas de baixa escolaridade sem acesso à mamografia e às regiões que têm taxas de incidência e mortalidade elevadas

Publicado: 07/10/2019 | 15h43
Última modificação: 08/10/2019 | 12h30

O Rio de Janeiro é o estado brasileiro com maior taxa estimada de incidência de câncer de mama (68,78%) e também a unidade da federação com maior mortalidade (18,8%), segundo estimativas elaboradas pelo INCA para o biênio 2018-2019. Os números preocupantes no Rio de Janeiro são resultado de fatores como o envelhecimento da população, a inatividade física e a obesidade. As informações foram discutidas na segunda-feira, 7, durante a cerimônia em celebração ao Outubro Rosa, no Instituto.

Das mulheres com indicação etária para exames de mamografia (50 a 69 anos) a cada dois anos, 60% fizeram o procedimento em 2013, segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde. Destas, a maior parte está no Sudeste (67,9%) e a menor, no Norte (38,7%). Se esses números forem observados pela ótica da escolaridade, uma nova discrepância é constatada: mulheres com curso superior completo – portanto, em tese, com mais acesso à informação – representam 81% das que fizeram mamografia contra 51% das que não têm instrução ou possuem o ensino fundamental incompleto. Mais uma vez, o Norte do País apresenta a maior distorção – menos de 30% com baixo nível de escolaridade se submeteram à mamografia.

“A gente não vai avançar se darmos atenção por igual a situações desiguais”, analisou Liz Almeida, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA, que fez a apresentação “A Situação do Câncer de Mama no Brasil”. “É preciso, sim, dar uma atenção diferenciada para a Região Norte”. Ela disse que a situação do Rio de Janeiro também chama atenção.

O Brasil figura, em 2018, na segunda faixa mais alta de incidência de câncer de mama entre os todos os países com uma taxa de 62,9 casos por 100 mil mulheres (taxa padrão utilizada mundialmente). Os países são agrupados em cinco faixas.

Quanto à taxa de mortalidade de câncer de mama, o Brasil está situado na segunda faixa mais baixa com uma taxa de 13 por 100 mil, ao lado de países desenvolvidos como EUA, Canadá e Austrália, e melhor de que alguns deles, como a França e o Reino Unido.

 

Veja mais sobre acesso ao tratamento e medidas preventivas contra o câncer de mama.

 

Rede de Solidariedade

Ainda durante o evento, o Instituto promoveu o debate “Juntos, enfrentando o medo”, mediado pela jornalista Luana Bernardes, da Rádio BandNews FM. O objetivo foi mostrar que, ao lado do papel inquestionável do Estado no controle da doença, parentes, amigos e a sociedade civil organizada podem contribuir com o apoio de várias formas a pacientes e familiares, principalmente no enfrentamento do estigma do câncer.

A presidente da ONG Pérolas,  Jhiovana Ibañez, enfatizou a necessidade de resgate da autoestima das mulheres. “Algumas delas não se sentem corporalmente mais mulheres depois de uma cirurgia para remover a mama”. As redes de apoio são importantes, continuou, porque muitas vezes, as mulheres não conversam com a família sobre o problema, mas se sentem mais à vontade com quem enfrenta ou enfrentou o câncer de mama.

A psicóloga da Clínica da Dor do INCA e coordenadora do grupo de pesquisa Corpo e Finitude, Juliana Castro, se centrou na necessidade de “reinvenção do corpo” principalmente no pós-tratamento: “Esse trabalho é lento, subjetivo, mas é isso que vai fazer com que a paciente possa fazer desse corpo novo o corpo próprio”.

“O que eu percebo é o que o medo que a gente tem nem só é do estigma que a gente ouve dizer (‘Vai cair cabelo’, ‘Vai sentir enjoo’), mas o medo ‘do que vai ser’ ’’, disse Walkyria dos Reis Nadaz, paciente do INCA e integrante do grupo Renascer. Ela também considera que o apoio das redes de solidariedade é fundamental. A paciente fez retirada radical do seio direito e é modelo de corpo da campanha de controle do câncer de mama, por isso não fez reconstrução mamária. “O medo pode ser positivo ou negativo: depende de quem está ao seu lado”, avaliou.

Para a chefe da Seção de Mastologista do INCA, Fabiana Tonellotto, “o que se precisa é fazer a disseminação do conhecimento, é educar as pessoas, para que elas se conheçam e conheçam o seu corpo”. Ela acredita que isso acaba por “reduzir esse medo”.

 

 A campanha

A campanha do INCA e do Ministério da Saúde deste ano tem como mote Cada corpo tem uma história. O cuidado com as mamas faz parte dela, e foi apresentada pela diretora-geral do Instituto, Ana Cristina Pinho. “O câncer é uma realidade e é parte da vida das pessoas. Então, é preciso falar disso”, disse ela lembrando o quanto o medo do câncer ainda é disseminado na sociedade.

A campanha tem como alvo mulheres em torno de 60 anos, mas é um chamado a toda a sociedade. O mês de outubro deve lembrar que o cuidado com as mamas, inclusive pelos homens (a doença afeta cerca de 1% deles, mas de forma bem agressiva), precisa ocorrer o ano inteiro.

O evento em celebração ao Outubro Rosa no INCA foi iniciado pela subsecretária de Regulação, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Cláudia da Silva Lunardi.