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Estudo associa fumar a aumento da circunferência abdominal entre adolescentes brasileiros

Programa Nacional do Controle do Tabagismo reduziu em 35% o número de fumantes no Brasil nos últimos dez anos

Publicado: 30/05/2018 | 10h09
Última modificação: 07/05/2019 | 16h04
Especialistas discutem sobre os riscos do tabagismo

O debate reuniu especialistas na área para discutir sobre os riscos do tabagismo

A obesidade abdominal em adolescentes de 15 a 17 anos é mais frequente entre os fumantes do que entre os não fumantes. A obesidade abdominal (circunferência de cintura elevada) é um indicativo de acumulação de gordura nessa região e representa um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, câncer e diabetes.

Essa é uma das conclusões do estudo Avaliando a relação entre tabagismo e obesidade abdominal em uma pesquisa nacional entre adolescentes no Brasil, realizado por pesquisadores do INCA, da Universidade Johns Hopkins (EUA) e da Fiocruz, e publicado este ano pela revista científica Preventive Medicine. A pesquisa foi apresentada ao público geral como parte da celebração do Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio), na sede do INCA, no Rio de Janeiro, quarta-feira. Também foi lançada a campanha “Tabagismo e doenças cardiovasculares", seguida de debate sobre o tema.

O estudo mostra que a circunferência abdominal em meninos que fumam é 131% maior do que entre os não fumantes. Entre as meninas, os dados são parecidos: a circunferência abdominal é 57% maior entres as adolescentes que fumam, em comparação às não fumantes. Isso quebra a ideia popular de que fumar proporciona “ganhos estéticos".

Mais: apenas 3,1% dos meninos não fumantes consomem uma ou mais doses de álcool diariamente, contra 28,9% dos que fumam a partir de um cigarro por dia, em média. Entre as meninas, 31,2% das fumantes consomem uma ou mais doses de bebidas alcóolicas, em média, por dia.

No Brasil, estima-se que cerca de 100 mil adolescentes fumem, diariamente, um ou mais cigarros, e isso num País em que vender cigarro e bebidas para menores de idade é proibido por lei. “O que não está funcionando para explicar esse número?", questionou o epidemiologista do INCA e coautor do estudo André Szklo. “O que será do futuro desses adolescentes brasileiros se a gente não fizer nada por eles hoje?" Ele lembrou ainda que o tabagismo é uma doença pediátrica, uma vez que a experimentação entre a maioria das pessoas se dá na infância ou na adolescência.

Os pesquisadores utilizaram dados do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (Erica), pesquisa nacional feita em 2013 e 2014 entre estudantes brasileiros de escolas públicas e privadas, coordenada pelo Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eles analisaram informações de 21.671 rapazes e 17.142 moças de 15 a 17 anos e observaram a relação entre o tabagismo e a presença de outras características e comportamentos de risco à saúde.

Pesquisas anteriores em adultos também encontraram associação entre o fumo e a circunferência da cintura elevada. Essas pesquisas sugerem que uma possível explicação para o fato seria que a nicotina (substância do tabaco que causa a dependência) aumenta a resistência insulínica, que, por sua vez, está relacionada ao depósito de gordura na região abdominal. Essa pode ser uma explicação para o resultado do estudo apresentado, mas a relação de causalidade entre o tabagismo e a obesidade abdominal em adolescentes ainda precisa ser mais investigada por pesquisas específicas.

Avanços

Apesar de todos os desafios para o controle do tabagismo, é possível contabilizar vitórias. O coordenador de Prevenção e Vigilância do INCA (Conprev), Eduardo Franco, ao discorrer sobre os Avanços do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, apresentou dados mostrando que as ações articuladas entre diversos parceiros públicos e privados puderam reduzir, apenas nos últimos dez anos, o número de fumantes no Brasil em 35%.

Em 2016, o percentual de adultos que fumavam era 10,2%. Quando separado por gênero, a prevalência de fumantes, nesse mesmo ano, é maior no sexo masculino (13,2%) do que no feminino (7,5%). Se analisado por faixa etária, a frequência é menor entre adultos com 65 anos ou mais (7,3%). Já as faixas etárias de 18 a 24 anos (8,5%) e 35 a 44 anos (11,7%) apresentaram um pequeno aumento em relação ao ano anterior, quando foram registrados 7,4% e 10%, respectivamente.

Mais cedo, a diretora-geral do Instituto, Ana Cristina Pinho, reforçou a importância de eventos como o do Dia Mundial sem Tabaco para chamar atenção ao problema do tabagismo associado a enfermidades cardiovasculares, uma vez que “pesquisas recentes mostram que o conhecimento da população sobre as doenças provocadas pelo tabaco ainda é incrivelmente baixo". Ela lembrou ainda o Projeto de Lei do Senado 769/2015, que prevê a padronização das embalagens dos produtos do tabaco. A diretora-geral também comemorou o fato de a Presidência da República ter ratificado o Protocolo para Eliminação do Comércio Ilícito de Cigarros e de Outros Produtos do Tabaco. O Protocolo está vinculado ao Artigo 15 da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é a principal política de regulação da oferta para reduzir o uso do tabaco e suas consequências para a saúde e para a economia. Com a formalização da adesão, o País poderá se beneficiar da cooperação internacional no combate ao comércio ilícito de cigarro.

Durante a cerimônia, foi lançada a campanha própria do Ministério da Saúde e do INCA Com o coração não se brinca. Faça a melhor escolha para a sua vida: não fume!

Debate

Moderado pelo jornalista Pablo Ribeiro, da BandNewsFM Rio, o debate “Tabagismo e Doenças Cardiovasculares", trouxe o depoimento de uma ex-fumante, a chefe da Divisão de Administração do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Neyla Durães Fernandes. “A nicotina é uma muleta", disse, ao comentar sobre a dificuldade de as pessoas largarem o cigarro. “A nicotina é a única droga que você consegue usar o dia inteiro", acentuou Vera Borges, da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco (INCA). “A informação precisa chegar ao adolescente", preocupou-se a coordenadora de Assistência do INC, Aurora Felice Issa. “Depois de cinco anos, apenas 20% dos pacientes que enfartaram por causa do cigarro estarão vivos", alertou o chefe da Divisão Clínica do Hospital do Câncer I, o oncocardiologista Élcio Novaes.

Também estiverem no evento o representante da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), Diogo Alves, o diretor-geral do INC, João Manoel Pedroso; e a subsecretária de Saúde do município do Rio de Janeiro, Claudia Lunardi. Em função da campanha do Dia Mundial sem Tabaco, o INCA estreita relações com o INC. “Essa parceria é estratégica para o País por conta de que a maior parte das mortes são relacionada às doenças crônicas: doenças cardiovasculares, câncer e doenças pulmonares: seis a cada dez mortes ocorrem em decorrência disso", esclareceu João Pedroso.

Apoio

Em apoio à campanha do Dia Mundial sem Tabaco, a Rodoviária Novo Rio promoveu a distribuição de materiais educativos sobre os malefícios do tabagismo, na tarde de 30 de maio. A Rodoviária abriga desde 28 de maio a exposição “O controle do tabaco no Brasil: uma trajetória", organizada pelo INCA e a Fiocruz.

O Dia Mundial sem Tabaco foi instituído pelos estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS). Anualmente, a OMS elege um tema para uma campanha mundial, que tem como objetivo chamar a atenção para a epidemia do tabaco e as mortes que acarreta.

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