Notícias

Estudo do INCA estima que mortalidade de mulheres por câncer de pulmão desacelere a partir de 2030

Na cerimônia do Dia Nacional de Combate ao Fumo também foi apresentado relatório da OMS sobre a epidemia global do tabaco

Publicado: 29/08/2019 | 14h43
Última modificação: 06/09/2019 | 08h54
Carlos Leite
Pesquisadora Mirian Carvalho, da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA, no palco, apresentando as conclusões do estudo sobre mortalidade no Brasil por câncer de pulmão

Mirian Carvalho apresentou conclusões do estudo sobre mortalidade por câncer de pulmão no Brasil

A taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre as mulheres brasileiras vai encerrar uma tendência histórica de elevação em 2030 e estabilizar-se. A estimativa é do estudo A curva epidêmica do tabaco no Brasil: para onde estamos indo?, cujos resultados foram apresentados nesta quinta-feira, 29, durante as comemorações pelo Dia Nacional de Combate ao Fumo, no INCA.

Elaborado pelo Instituto e pelo Ministério da Saúde (MS), o levantamento mostra que a redução da taxa de mortalidade é resultado direto da diminuição da prevalência do tabagismo na população feminina, consequência das ações da Política Nacional de Controle do Tabaco.

Os pesquisadores do INCA calcularam a taxa de mortalidade por câncer de pulmão, padronizada por idade (parâmetro usado mundialmente) de 1980 a 2017, e estimaram sua evolução até 2040, separadamente, para homens e mulheres. Os riscos de morrer de câncer de pulmão no Brasil em 2017 foi de 17 a cada 100 mil homens e de 12 a cada 100 mil mulheres.

A taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre os homens sempre foi superior à verificada entre as mulheres. No entanto, como desde 2005 a taxa entre os homens está caindo e a entre as mulheres subindo, as curvas estão se aproximando. A razão entre a mortalidade homem/mulher diminuiu de 3,6 em 1980 para 1,7 em 2017.

A taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre os homens continua a cair e deve manter essa tendência nos próximos anos, também reflexo da redução da prevalência de fumantes incentivada pelas ações de controle do tabagismo. Entre a população masculina, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão vem subindo desde o início da década de 1980, estabilizou-se a partir de meados dos anos 1990 e começou a cair em 2005.

“A epidemia do tabaco é maior entre os homens inicialmente e depois ela atinge a mulher,” explicou a representante da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA, Mirian Carvalho, autora principal do estudo. Segundo ela, o pico da prevalência do tabaco entre as mulheres não atinge o patamar dos homens em função da Política Nacional de Controle do Tabaco e porque as mulheres puderam observar como o tabagismo afetou primeiro o sexo oposto.

No Brasil, o câncer de pulmão, que engloba tumores na traqueia, brônquios e pulmões, é o tipo que mais mata homens e o segundo que mais mata mulheres (depois do câncer de mama).

O tabagismo é a principal causa para o desenvolvimento do câncer de pulmão. Os impactos da diminuição do número de fumantes na redução da mortalidade por câncer de pulmão demoram décadas para serem percebidos, já que um fumante leva mais de 20 para desenvolver a doença.

Cessação de fumar: um desafio

Ainda durante a cerimônia, foi apresentado o WHO Report on the global tobacco epidemic (Relatório da OMS sobre a epidemia global do tabaco). O objetivo do documento é monitorar, em nível global, o progresso das medidas previstas no pacote da Organização Mundial da Saúde intitulado Mpower (acrônimo com as iniciais em inglês das palavras monitorar, proteger, oferecer, alertar e aumentar) contra o tabagismo. Elaborado desde 2008, o relatório é lançado a cada dois anos, sempre em julho, em Nova Iorque. Mas, quando um país atinge progressos significativos em todas as áreas monitoradas pelo documento, é considerada a possibilidade de lançá-lo nesse território.  Por isso, em reconhecimento às ações do controle do tabagismo no Brasil, o relatório foi lançado no Rio de Janeiro, onde fica a sede do INCA.

“O progresso [das ações do controle do tabaco] tem sido monitorado principalmente nos países de baixa e média rendas”, disse Diogo Alves, consultor da Organização Pan-americana da Saúde (Opas/OMS). O maior impacto das doenças crônicas está nesses países. O Brasil é considerado de média renda.

O relatório de 2019 foi centrado na avaliação da oferta de serviços para parar de fumar (cessação). Nos países monitorados, seis em cada dez fumantes querem parar de fumar. Apenas 4% conseguem sozinhos. A oferta de serviços de cessação ainda é um desafio para a maioria dos países. “Basicamente, apenas uma em cada três pessoas no mundo tem acesso a serviço integral de saúde para cessação”, disse Alves, para quem a ampliação de oportunidades para quem quer parar de fumar “é desafiador”.

O evento foi aberto pelo coordenador de Prevenção e Vigilância do INCA, Eduardo Franco, seguido do coordenador de Assistência e diretor-geral substituto do Instituto, Gélcio Mendes.