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Estudo inédito do INCA compara alterações epigenéticas de pacientes com câncer de esôfago de diferentes países

Pesquisa identifica marcadores que contribuem para diagnóstico precoce e desenvolvimento de novas terapias

Publicado: 17/05/2021 | 10h23
Última modificação: 28/05/2021 | 16h47

Pesquisadores do INCA participam de primeiro estudo multicêntrico sobre alterações epigenéticas de pacientes com câncer de esôfago de diferentes países com baixo/médio Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A pesquisa abre a possibilidade de desenvolvimento de novas terapias e avanços nos métodos de detecção precoce da doença a partir das alterações epigenéticas identificadas.

O estudo Genome-Wide DNA Methylation Profiling of Esophageal Squamous Cell Carcinoma from Global High-Incidence Regions Identifies Crucial Genes and Potential Cancer Markers (Caracterização do Perfil de Metilação do DNA Genômico de Carcinoma Epidermodie de Esôfago de Regiões de Alta Incidência Identifica Genes Cruciais e Potenciais Biomarcadores) foi publicado na revista Cancer Research, da American Association for Cancer Research Publications, e teve entre seus realizadores os pesquisadores do INCA Sheila Coelho Soares e Luis Felipe Ribeiro, chefe do Programa de Carcinogênese Molecular e coordenador de Pesquisa do Instituto. A pesquisa  analisou 240 pacientes de diferentes países, sendo 28% do INCA, ao longo de cinco anos. O Instituto representa o Brasil nesse estudo e integra um grupo com membros de diferentes países, coordenado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês). 

A partir do estudo, foi identificado que as alterações epigenéticas estão entre as mais relevantes para o desenvolvimento do câncer de esôfago, já que o mesmo padrão é observado em pacientes de diferentes países. Sheila Coelho destaca que uma das contribuições mais significativas dessa pesquisa é que, a partir da identificação desses marcadores, podem ser praticados métodos menos invasivos para o diagnóstico do câncer de esôfago. “Um exemplo é a biópsia líquida, que é pouco invasiva e com boa relação custo-efetividade, esse método permite investigar os marcadores da doença a partir do sangue do paciente”, explica Sheila Coelho.

A partir dessa pesquisa, o diagnóstico precoce dos pacientes com câncer de esôfago facilita também o acesso ao tratamento adequado. De acordo com o Luis Felipe, já é possível a utilização de medicamentos capazes de reverter alterações epigenéticas dos pacientes. “Alguns remédios até mesmo já são utilizados no tratamento de outros tipos de câncer. Assim, poderemos avaliar o potencial de incorporação dessas drogas no tratamento de pacientes com câncer de esôfago”.

Epigenética é a área da biologia que estuda as alterações do DNA que não modificam a sua sequência, mas afetam a atividade de um ou mais genes. Essas alterações podem gerar efeitos negativos ou positivos para o organismo. No caso do câncer, a epigenética é importante porque ajuda a entender como o comportamento da célula tumoral é diferente do comportamento da célula normal.

As alterações epigenéticas costumam ser frequentes nos pacientes oncológicos e determinam como o código genético é lido. Essa avaliação ainda não tinha sido feita de forma tão profunda em câncer de esôfago e nem mesmo em algumas das populações mais afetadas pela doença no mundo. Por isso, o estudo traz observações que permitem entender como esses tumores se formam e quais são as mudanças epigenéticas que participam do desenvolvimento e da evolução da doença. Dessa forma, será possível revelar os sinais do câncer de esôfago em estágio inicial, possibilitando um tratamento mais precoce, dando maiores chances de controle da doença para esses pacientes.

Outro diferencial do estudo é examinar essas populações pouco estudadas e em que o câncer de esôfago é mais prevalente, como a da Ásia (considerada o cinturão do câncer de esôfago), incluindo a Índia e a China, o Leste da África e a América do Sul, com os dados do Brasil. A pesquisa analisou mais de 850 mil alterações epigenéticas em câncer de esôfago.

Sheila Coelho explica que a maior dificuldade do paciente com a doença é o diagnóstico tardio. “O mais comum é que os pacientes somente procurem ajuda médica quando não conseguem mais engolir líquido ou alimentos, já estando num estágio muito avançado para que o tratamento seja eficaz. Esse estudo traz a possibilidade de um avanço da saúde para esses pacientes”, exemplifica.

O câncer de esôfago é o sétimo mais incidente no mundo com uma estimativa de 572 mil novos casos e 509 mil mortes, em 2018. Esse tipo de câncer afeta principalmente populações mais pobres, como as do Leste da África, Ásia e América do Sul, devido a fatores ambientais e alimentares. A detecção tardia e a falta de opções de tratamento são os principais motivos da alta taxa de letalidade.

Luís Felipe destaca que esse tipo de câncer é o menos estudado entre os mais incidentes no mundo. Isso porque é uma doença que atinge, na maioria, a população de baixa e média rendas. “Essa é uma doença negligenciada. Por isso, esse estudo tem papel fundamental porque vai ajudar populações que necessitam de atenção”, completa.

No Brasil, esse câncer é o sexto mais incidente e o quinto de maior mortalidade, entre os homens, sem considerar os tumores de pele não-melanoma. As regiões Sul e Sudeste são as de maior incidência. Os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença são o uso de álcool e tabaco. Além disso, no Sul do Brasil, está associado ao consumo do chimarrão, em altíssimas temperaturas.
 

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