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INCA participa de mapa de diversidade genética latino-americana financiado pela Chan-Zuckerberg Initiative

Rede internacional de pesquisas busca contribuir para aumentar variedade em bancos genéticos do mundo e avançar no controle de doenças como o câncer

Publicado: 30/11/2021 | 15h40
Última modificação: 28/12/2021 | 12h50

O INCA, juntamente com outras instituições latino-americanas, acaba de ter o projeto Um Mapa de Células Humanas da Diversidade Latino Americana selecionado para receber financiamento do programa Redes de Ancestralidade da Chan-Zuckerberg Initiative (CZI) para Human Cell Atlas (HCA). O programa tem como um dos objetivos principais contribuir para aumentar a diversidade dos bancos genéticos em todo o mundo e para a erradicação e o controle de doenças.

O projeto é integrado pela pesquisadora Patricia A. Possik, líder do grupo de Biologia Funcional de Tumores do INCA, e  tem como objetivo a construção de um banco de dados de células imunes de latino-americanos, o que pode ajudar a entender por que alguns ancestrais específicos são mais suscetíveis a certas doenças, como  o câncer. Para isso, os pesquisadores investigarão as células do sangue e do tecido da vesícula biliar de diversos grupos de seis países das Américas (Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e de latinos dos EUA). O grupo de Patrícia conta ainda com outra brasileira, Patrícia Severino, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, além de mais oito pesquisadores desses países. 

A iniciativa nasce de um dos maiores problemas atuais relacionados aos dados genômicos dos bancos genéticos do mundo: oitenta por cento desses dados são de pessoas com ascendência europeia, o que dificulta o avanço global no desenvolvimento de terapias e tratamentos para todos. Além do projeto latino-americano, outros 16 – sendo dois  deles também voltados para a América Latina - foram selecionadas para compor as Redes de Ancestralidade para o HCA, do inglês Human Cell Atlas, e serão igualmente financiados pela CZI, que anunciou o resultado do edital de seleção internacional em 29 de novembro. “Ficamos muito motivados com essa seleção, principalmente porque é fundamental que o Brasil e a América Latina estejam mais bem representados nos bancos genéticos mundiais. O nosso País e a nossa região são reconhecidamente alguns dos mais ricos em termos de diversidade étnica e genética entre ancestrais indígenas e de outros continentes”, comemora Patricia.

A pesquisadora explica ainda que esses ancestrais têm sido sub-representados em estudos genômicos e podem abrigar padrões de expressão específicos da população não descobertos no nível celular. Logo, sem a caracterização dessas populações pouco estudadas, o desenvolvimento de estratégias de saúde para as populações dessa região fica limitado, e as desigualdades só tendem a aumentar. Além disso, a diversidade genética latino-americana pode contribuir para o avanço no controle de doenças em indivíduos de diversas partes do mundo, o que pode vir a significar avanço na saúde global, no médio e longo prazo. 

Os projetos selecionados em todo o mundo contam com pesquisadores e especialistas em biologia de célula única, biologia celular e molecular (que é o caso de Patricia), bioinformática e engajamento com comunidades e representam, no total, 31 países diferentes. As pesquisas têm objetivos distintos, mas todos os projetos envolvem sequenciamento de células únicas. Sendo que, cada projeto investiga tecidos ou órgãos específicos, como sistema imune, coração, pele, tecidos musculoesqueléticos, dentre outros. “O que liga todos os projetos é que eles envolvem estudar populações diversas, não europeias, sub-representados nos estudos, como as populações latino-americanas, africanas e asiáticas”, explica Patricia. 

A ideia é que as Redes de Ancestralidade para o HCA possam trazer uma perspectiva mais ampla e precisa para as pesquisas envolvendo análises de célula única, fornecendo informações valiosas sobre como a ancestralidade genética influencia a saúde e as doenças no nível de nossas células, resultando em um recurso científico que será mais representativo da diversidade encontrada na população humana global. “Esse tipo de ação é muito relevante para que seja possível a criação de novas terapias e tratamentos que sejam eficazes para uma diversidade maior de pessoas, seja qual for a sua ancestralidade”, defende Patricia. “Essa é uma oportunidade para que a comunidade biomédica se una para aumentar a diversidade genética nos bancos de dados globais, o que terá impacto direto na pesquisa científica que beneficia populações pouco estudadas, como as latino-americanas. E isso significa também maiores possibilidades de avançarmos na pesquisa de doenças de alta prevalência nessas populações”.

Pesquisas assim ainda têm um custo muito alto, tanto no Brasil, como no exterior, devido ao valor elevado do material essencial para a pesquisa e a manutenção dos bancos genéticos. “Por isso, esse tipo de fomento é tão importante para que possamos entender como diferenças genéticas impactam certas doenças no Brasil e no mundo, por exemplo, o desenvolvimento de canceres e outras doenças crônicas”, explica pesquisadora do INCA.

 

*Numa primeira versão, a matéria trazia a data errada do resultado do edital. O texto foi corrigido e o título foi alterado.  O texto também teve pequenos acréscimos de informação e alterações na redação.

 

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