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Sugestão de nicotina como fator preventivo à Covid é duramente criticada em seminário virtual

Evento do Dia Mundial sem Tabaco defendeu rigor na avaliação de trabalho científicos, e que não se confunda publicidade com responsabilidade social

Publicado: 27/05/2020 | 19h26
Última modificação: 28/05/2020 | 16h41

O recente estudo francês que sugeriu haver benefícios da nicotina contra a Covid-19 não possui peso científico: um de seus autores foi funcionário da indústria do tabaco e uma revisão minuciosa de artigos científicos aponta na direção contrária - fumar aumenta em 45% as complicações por coronavírus, com  índice de mortalidade nesses casos de 38%. A análise é de  Frederico Fernandes, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, durante o seminário virtual (webinar) “Tabagismo e risco potencial para a Covid-19”, nesta quarta-feira, 27, organizado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), com apoio do INCA e do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). O seminário, que marca o Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio), da Organização Mundial da Saúde (OMS), também contou com a participação da doutora em Saúde Pública Stella Aguinaga, da Universidade da Califórnia (EUA).

Em abril deste ano, o estudo francês A nicotinic hypothesis for Covid-19 with preventive and therapeutic implications levantou a hipótese de que a nicotina poderia ter papel protetor na infecção por Covid-19. Fernandes chamou atenção para o fato de o estudo ter sido postado em um depositário de publicações científicas no qual não é exigida nenhum tipo de curadoria, como o crivo de um editor ou a revisão de pares. A obtenção dos dados (na China) para o artigo deu-se de maneira “bastante questionável” e não  houve nenhuma declaração de conflito de interesses. Em “um trabalho de detetive”, porém, descobriu-se que pelo menos um dos autores trabalhara para a indústria do tabaco. Além disso, a agência noticiosa que divulgou o artigo pelo mundo publica com frequência informações de interesse das empresas tabageiras. “Parece ser mais uma narrativa da indústria do tabaco para diminuir o possível efeito da pandemia no lucro deles.” O artigo é uma mentira? “É uma deturpação”, precisou o epidemiologista.

Por outro lado, o estudo que talvez mais apresente evidências científicas até agora, segundo Frederico Fernandes (Prevalence, severety and mortality associated with COPD and smoking in patients with COVID-19: a rapid systematic review and meta-analysis), segue na direção contrária ao texto francês: informa que as chances de complicações por Covid em fumantes é de 45%, com 38% de taxa de mortalidade.

Por sua vez, Stella Aguinaga mostrou-se bastante preocupada com a estratégia da indústria do tabaco, que tem se apresentado como parceira social neste momento de escassez de recursos econômicos, deixando prefeitos e governadores em uma situação delicada. “É importante que isso não vire porta de entrada para que depois mais jovens se tornem vítimas [do tabaco]”. Para ela, é preciso atenção especial para ações que são vendidas como de “responsabilidade social”. A indústria estaria “tentando se mostrar indispensável, tentando reabrir suas fábricas como promotoras da economia, quando, na verdade, a gente sabe que os governos, incluindo o do Brasil, perdem muito mais do que ganham com a indústria”. 

A professora entende que essas ações da indústria devem ser enquadradas como o que, de fato, são: “atividade de propaganda e marketing”, e contempladas pela legislação. 

Tabagismo mata 438 brasileiros por dia

Coronavírus é uma família de vírus que causa infecções respiratórias. A transmissão acontece de uma pessoa doente, mesmo que assintomática, para outra por meio de aperto de mãos, gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro e por contato com objetos ou superfícies contaminadas, como celulares, mesas, maçanetas, brinquedos, teclados de computador etc. Na etapa mais crítica da Covid-19, há grave comprometimento da função respiratória, o que pode levar ao óbito.

O tabagismo também é considerado uma pandemia, causadora de mais de 8 milhões de mortes por ano no mundo (casos relacionados também ao tabagismo passivo). No Brasil, estima-se que 438 pessoas morram por dia em decorrência do consumo do tabaco. O tabagismo também auxilia no agravamento da crise do coronavírus, já que pode ser considerado fator de risco para as formas mais graves da Covid-19.

O Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio) foi criado em 1987 pela OMS para alertar sobre as doenças e mortes evitáveis relacionadas ao tabagismo. No Brasil, o INCA, órgão auxiliar do Ministério da Saúde no desenvolvimento e coordenação das ações integradas para a prevenção e o controle do câncer no Brasil, é o responsável pela divulgação e comemoração da data.

O INCA também exerce a Secretaria-Executiva da Comissão Nacional para a Implementação da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controle do Tabaco (Se-Conicq), que coordena e articula a participação de diferentes setores do governo na implementação da Convenção-Quadro (CQCT/OMS), cujas medidas compõem a Política Nacional de Controle do Tabaco (PNCT) no Brasil. Cabe ao Ministro da Saúde o papel de presidente dessa Comissão; e à Direção-Geral do INCA, a vice-presidência.

O webinar, intercalado com depoimentos de pessoas que deixaram de fumar com o auxílio do SUS, foi introduzido pela coordenadora de Determinantes da Saúde, Doenças Crônicas Não Transmissíveis e Saúde Mental do escritório da Opas e da Organização Mundial da Saúde (OMS) no Brasil, Kária de Pinho Campos. Transmitido pela TV INCA, o webinar foi moderado pela consultora de Comunicação da Conass, a jornalista Lígia Fomenti.

 

Acesse a página Tabagismo e Coronavírus e saiba mais sobre o tema.

Conheça os depoimentos de pessoas que deixaram de fumar com o auxílio do SUS.

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