Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco

Fumicultura e saúde


Última modificação: 01/09/2021 | 14h34

A fumicultura é bastante exigente em termos de força de trabalho, cujo ciclo produtivo dura cerca de 10 meses, dividindo-se basicamente nas fases de produção de mudas e de campo. Desde a preparação para o plantio até a colheita, são usados diversos agrotóxicos, como herbicidas, inseticidas, fungicidas e antibrotantes (1).  

A exposição aguda e crônica aos agrotóxicos pode causar diversas doenças, como vários tipos de câncer, lesões hepáticas, lesões renais, distúrbios do sistema nervoso, esterilidade masculina, reações alérgicas, fibrose pulmonar irreversível, hiperglicemia, entre outras.

É importante destacar o uso de inseticidas organofosforados e carbamatos, que são agrotóxicos lipossolúveis e podem ser absorvidos por inalação, ingestão ou exposição dérmica (2). Os organofosforados causam três tipos de sequelas neurológicas: polineuropatia retardada, síndrome intermediária e efeitos comportamentais. A polineuropatia inclui fraqueza progressiva, perda de coordenação nas pernas, podendo evoluir até a paralisia. Os principais sintomas da síndrome intermediária são a diarréia intensa e a paralisia dos músculos do pescoço, das pernas e da respiração que ocorrem de forma aguda, podendo levar ao óbito. Dentre os efeitos comportamentais destacam-se: insônia, sono conturbado, ansiedade, retardo de reações, dificuldade de concentração e uma variedade de seqüelas psiquiátricas como apatia, irritabilidade, depressão e esquizofrenia (3).  

Estudos têm apontado que, entre os fumicultores, há um maior risco de desenvolver alterações neurocomportamentais capazes de evoluir para quadros de depressão e suicídio. Resultados do estudo apresentado por Falk et al (1996), mostraram que no município de Venâncio Aires, RS, um dos maiores produtores de tabaco no Brasil, os coeficientes de mortalidade por suicídios foram maiores do que todo o estado do RS e cerca de 80% dos suicídios ocorrem em agricultores. A hipótese é que a exposição do agricultor a organofosforados pode estar relacionada a níveis mais elevados de depressão e suicídio (4, 5).  

Além do intenso uso de agrotóxicos, os fumicultores encontram-se também expostos à nicotina, absorvida pela pele através do manuseio das folhas de tabaco. Conhecida como Doença da folha verde, esta intoxicação caracteriza-se por ser uma doença relacionada ao trabalho, própria da manipulação das folhas do tabaco. A exposição é intensificada no momento da colheita, pois à medida que as folhas amadurecem são colhidas manualmente e carregadas junto ao corpo até o local onde são processadas. A folha molhada colhida nas primeiras horas da manhã, bem como os suores do corpo facilitam a absorção dérmica. O trabalho manual, com o uso de instrumentos de corte junto à manipulação de agentes químicos, propicia o surgimento de lesões na pele (pruridos, cortes e arranhões) podendo aumentar a absorção dérmica da nicotina (6, 7).  

Os sintomas relacionados à doença da folha verde são comuns e não específicos, podendo estar também relacionados à exposição a agrotóxicos (6). Incluem tonteira, dor de cabeça, náusea e vômito, assim como cólicas abdominais, diarréia, dificuldade respiratória, palidez, sudorese, aumento da salivação, calafrios, e flutuações da pressão arterial e frequência cardíaca (ver Tabela 1). Os sintomas geralmente ocorrem à tarde ou noite, algumas horas após a exposição e a recuperação se dá no prazo de um a dois dias após o início dos sintomas (7).

Tabela 1: Sinais e sintomas de intoxicação aguda por agrotóxicos e/ou nicotina (doença da folha verde)

Sinais e Sintomas Principal motivo relacionado
Sistema Respiratório  
Alergias respiratórias Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Falta de ar Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Tosse Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Rinite Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Sinusite Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Asma Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Dor no peito Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Bronquite Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Excessiva secreção bronquial Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Rinorréia Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Broncoespasmo Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Dispnéia Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Broncoconstricção Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
bradipnéia Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Derme  
Alergias de pele Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Urticária Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Sistema Cardiovascular  
Taquicardia Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Hipertensão Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Palidez Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Hipotensão Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Sistema Circulatório  
Formigamento Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Sistema Gastrintestinal  
Dores de Estômago Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Vômito Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Náuseas Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Azia Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Cólica Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Tenesmo Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Incontinência fecal Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Edema e espasmo Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Sistema Nervoso  
Dores de Cabeça Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Nervosismo Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Depressão Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Tristeza Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Problemas de concentração e memória Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Sudorese Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Dificuldade de dormir Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Tontura Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Sonolência Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Letargia Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Fadiga Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Confusão mental Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Convulsões Intoxicação por agrotóxico anticolinesterásico
Outros  
Febre GTS
Calafrios Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Visão embaçada Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico
Lacrimejar constante Intoxicação por nicotina e/ou agrotóxico

Fonte: Área de Vigilância do Câncer relacionada ao Trabalho e Ambiente / Instituto Nacional de Câncer

 

O trabalho agrícola pode ser considerado como um fator de risco para câncer de pele. Os fumicultores, em específico, realizam a colheita das folhas nos meses de maior pico de intensidade de radiação solar (dezembro/janeiro) e normalmente se expõem rotineiramente ao sol durante todo o dia, por muitos anos. Esse fato aliado à pele clara (descendentes de alemães, poloneses, italianos) pode aumentar em muito o risco de desenvolvimento de câncer de pele (8). Exposição excessiva à radiação ultravioleta pode causar ainda queimaduras, danos ao sistema imunológico e envelhecimento prematuro da pele. Nos olhos pode causar foto-queratites, foto-conjuntivite e catarata (9, 10).  

A Área de Vigilância do Câncer relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) vem desde 2007 realizando pesquisas com o intuito de caracterizar o perfil de saúde e trabalho dessa população. Até o momento, duas pesquisas foram realizadas em municípios fumicultores do Rio Grande do Sul. A primeira, realizada em 2007, teve como objetivo caracterizar a exposição da população-alvo (15 anos ou mais) a fatores de risco selecionados, sendo eles: uso de agrotóxicos, tabagismo, uso de álcool e exposição solar. Os resultados indicam grande utilização de agrotóxicos de diversos tipos; exposição solar frequente com baixa proteção e prevalência de fumantes maior do que a estimada para a região sul. Além disso, foi observada elevada frequência de relatos de trabalho infantil, assim como de intoxicação aguda por agrotóxicos. A segunda pesquisa, realizada em 2010, teve também como objetivo estimar a prevalência de câncer de pele e suas lesões precursoras, através de entrevistas e de exames clínicos com dermatologistas. Os resultados estão em fase de análise, bem como nova investigação com objetivos mais abrangentes, incluindo análises laboratoriais para verificar intoxicação por nicotina e agrotóxicos, será conduzida em 2011.  

Referências bibliográficas: 

(1) Agostinetto D, Puchalski LEA, Azevedo R, Storch G, Bezerra AJ.A, Grützmacher AD. Caracterização da fumicultura no município de Pelotas-RS Revista Brasileira de Agroxicência, 2000; 6(2):171-175.

Disponível em: http://www2.ufpel.edu.br/faem/agrociencia/v6n2/artigo19.pdf

(2) By R. G. Feldman,  Occupational and environmental neurotoxicology. Philadelphia: Lippincott-Raven Publishers. 1998.  Disponível em: OCCUPATIONAL AND ENVIRONMENTAL

(3) Ministério da Saúde. Organização Pan-Americana da Saúde/OMS. Tabaco e Pobreza, um círculo vicioso. A Convenção-Quadro de Controle do Tabaco: uma resposta. Brasília, Ministério da Saúde, 2004.

Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/inca/manual31maio.pdf

 (4) Falk, J. W.; Carvalho, L. A.; Silva, L. R.; Pinheiro, S. Suicídio e doença mental em Venâncio Ayres – RS: Conseqüência do uso de agrotóxicos organofosforados? Relatório Preliminar de Pesquisa. UFRGS, Porto Alegre, 1996.

Disponível em: http://galileu.globo.com/edic/133/agro2.doc

 (5) Faria, N. M. X.; Facchini, L. A.; Fassa, A. G.; Tomasi, E. Trabalho rural e intoxicações por agrotóxicos. Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v.20, n.5, p.1298-1308, set./out. 2004.

Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/csp/v20n5/24.pdf

 (6) Arcury TA, Vallejos QM, Schulz MR, Feldman SR, Fleischer AB, Verma A, Quandt SA. Green Tobacco Sickness and Skin Integrity Among Migrant Latino Farmworkers. American Journal of Industrial Medicine, 2008; 51:195-203.

Disponível em: http://libres.uncg.edu/ir/uncg/f/M_Schulz_Green_2008.pdf

 (7) Quandt SA, Arcury TA, Preisser JS, Norton D, Austin C. Migrant farmworkers and green tobacco sickness: New issues for a understudied disease. American Journal of Industrial Medicine, 2000; 37:307-315. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/(SICI)1097-0274(200003)37:3%3C307::AID-AJIM10%3E3.0.CO;2-Z/pdf

 (8) Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância. A situação do câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2006. Disponível em: http://iah.iec.pa.gov.br/iah/fulltext/pc/monografias/ms/situcancerbrasil/situcancerbras2006.pdf

 (9) Understanding UVA and UVB. Skyn Cancer Foundation.

Disponível em: http://www.skincancer.org/understanding-uva-and-uvb.html

 (10) Colditz GA, Sellers TA, TrapinoE. Epidemiology: identifying the causes and preventability of cancer. Nature, 2006; 6:75-83. Disponível em: http://www.nature.com/nrc/journal/v6/n1/pdf/nrc1784.pdf

 Para mais informações, acesse:

 - Etges, V. E. O impacto da cultura do tabaco no ecossistema e na saúde humana. Textual. v.1, n.1, p.14-21, 2002.

Disponível em: http://www.sinpro-rs.org.br/textual/fumo.pdf

 - Troian, Alessandra; et al. O uso de agrotóxicos na produção de fumo: algumas percepções de agricultores da comunidade Cândido Brum, no município de Arvorezinha (RS). Apresentação oral no 47º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural, 2009.

Disponível em: http://www.sober.org.br/palestra/13/844.pdf

 - A cadeia produtiva do fumo. Revista Contexto Rural. Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais.

Disponível em: Revista Contexto Rural nro 4

 - Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar – FETRAF
http://contrafbrasil.org.br/

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