Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco

Fumicultura e saúde


Última modificação: 08/11/2021 | 12h30

A fumicultura é bastante exigente em termos de força de trabalho, com jornadas intensas e repetitivas. O ciclo produtivo tem duração de aproximadamente 10 meses, dividindo-se basicamente nas fases de produção de mudas e de campo. Desde a preparação para o plantio até a colheita, são usados diversos agrotóxicos de diferentes grupos químicos e classificação toxicológica, como herbicidas, inseticidas, fungicidas entre outros [1] [2].

Abaixo esquema de representação do processo de produção do tabaco desenvolvido por Reis et al. (2017) [2]

Figura 1 - Processo de Produção do tabaco: etapas, cargas de trabalho e impactos ambientais

 

O uso de trabalho manual intensivo, realizado em várias etapas do processo, bem como a adoção de posturas forçadas durante longas jornadas, aumenta o risco de desenvolvimento de problemas osteomusculares e dores crônicas nos trabalhadores dessas culturas [2].

A exposição aguda aos agrotóxicos pode causar os seguintes sintomas: tontura, fraqueza, cólicas abdominais, irritação nos olhos, visão turva, dor de cabeça, irritabilidade, cansaço, dormência, coceira na pele, diarreia, falta de apetite, enjoo, vômito, tremores, convulsão, falta de ar e aceleração dos batimentos cardíacos. Já a exposição crônica a essas substâncias pode causar diversas doenças, câncer, danos neurológicos, transtornos mentais, esterilidade masculina, infertilidade, malformações congênitas, reações alérgicas, entre outras [3].

Estudos têm apontado que, entre os fumicultores, existe risco de desenvolver alterações neuropsicológicas capazes de evoluir para quadros de depressão e suicídio [4] [5] [6]. Os resultados sugerem que a exposição a agrotóxicos pode estar relacionada a transtornos mentais. Contudo, outros fatores de risco comuns na cultura do tabaco, não podem ser excluídos [7]. Dados coletados pelo Ministério da Saúde confirmam que as regiões produtoras de tabaco são as que apresentam maiores índices nacionais de depressão e suicídio entre os agricultores e por isso incluiu como parte de sua Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio 2017 a 2020 ações para prevenção do suicídio, vigilância e cuidados em Saúde Mental para os estados com maior produção de Fumo (RS, PR, SC e AL) [8] [9].

Além do intenso uso de agrotóxicos, os fumicultores encontram-se também expostos à nicotina, absorvida pela pele através do manuseio das folhas de tabaco. Conhecida como Doença da folha verde, esta intoxicação caracteriza-se por ser uma doença relacionada ao trabalho, própria da manipulação das folhas do tabaco. A exposição é intensificada no momento da colheita, pois à medida que as folhas amadurecem são colhidas manualmente e carregadas junto ao corpo até o local onde são processadas. A folha molhada colhida nas primeiras horas da manhã, bem como os suores do corpo facilitam a absorção dérmica. O trabalho manual, com o uso de instrumentos de corte junto à manipulação de agentes químicos, propicia o surgimento de lesões na pele (pruridos, cortes e arranhões) podendo aumentar a absorção dérmica da nicotina [10] [11] [12].  

Os sintomas relacionados à doença da folha verde são comuns e não específicos, podendo estar também relacionados à exposição a agrotóxicos [9]. Incluem tonteira, dor de cabeça, náusea e vômito, assim como cólicas abdominais, diarréia, dificuldade respiratória, palidez, sudorese, aumento da salivação, calafrios, e flutuações da pressão arterial e frequência cardíaca. Os sintomas geralmente ocorrem à tarde ou noite, várias horas após a exposição e a recuperação se dá no prazo de um a dois dias após o início dos sintomas [10] [13]. 

A portaria do MS n.2309 de 20 de agosto de 2020, que atualiza a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT), cita o efeito tóxico do tabaco e da nicotina (Doença da Folha Verde).

O trabalho agrícola pode ser considerado como um fator de risco para câncer de pele. Os fumicultores, em específico, realizam a colheita das folhas nos meses de maior pico de intensidade de radiação solar (dezembro/janeiro) e normalmente se expõem rotineiramente ao sol durante todo o dia, por muitos anos. Esse fato aliado à pele clara (descendentes de alemães, poloneses, italianos) pode aumentar em muito o risco de desenvolvimento de câncer de pele [14]. Exposição excessiva à radiação ultravioleta pode causar ainda queimaduras, danos ao sistema imunológico e envelhecimento prematuro da pele. Nos olhos pode causar foto-queratites, foto-conjuntivite e catarata [15] [16].  

 

Para mais informações, acesse:

O impacto da cultura do tabaco no ecossistema e na saúde humana.

O uso de agrotóxicos na produção de fumo: algumas percepções de agricultores da comunidade Cândido Brum, no município de Arvorezinha (RS).

Fumicultura no Brasil

 

REFERÊNCIAS

1. Agostinetto D, Puchalski LEA, Azevedo R, Storch G, Bezerra A.J.A, Grützmacher AD. Caracterização da fumicultura no município de Pelotas-RS. Revista Brasileira de Agrociência, 2000; 6(2):171-175. Disponível em: file:///C:/Users/772334/Downloads/321-576-1-PB.pdf. Acesso:19 Ago. 2021.

2. REIS, M.M., et al. Conhecimentos, atitudes e práticas de agricultoras sobre o processo de produção de tabaco em um município da Região Sul do Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 33, n. 15, 2016. Disponível em: http://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp/artigo/217/conhecimentos-atitudes-e-.... Acesso: 19 Ago. 2021.

3. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Ambiente, trabalho e câncer: aspectos epidemiológicos, toxicológicos e regulatórios, Rio de Janeiro: INCA, 2021. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//...

4. Krawczyk, Noa BA; Meyer, Armando PhD; Fonseca, Maíra BA; Lima, Jaime. PhD Suicide Mortality Among Agricultural Workers in a Region with Intensive Tobacco Farming and Use of Pesticides in Brazil, Journal of Occupational and Environmental Medicine: September 2014 - Volume 56 (9) p 993-1000. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5240450/

5. Cruzeiro Szortyka ALS et al. Suicidality among south brazilian tobacco growers. NeuroToxicology. 2021, 86, 52-58. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.neuro.2021.06.005

6. Faria NM, Fassa AG, Meucci RD, Fiori NS, Miranda VI. Occupational exposure to pesticides, nicotine and minor psychiatric disorders among tobacco farmers in southern Brazil. Neurotoxicology. 2014; 45:347-54. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0161813X14000837?via%...

7. Campos E. et al. Exposure to pesticides and mental disorders in a rural population of Southern Brazil, NeuroToxicology, Volume 56, 2016, Pages 7-16. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0161813X16301036.

8. Ministério da Saúde. 2018. Ministério da Saúde atualiza dados sobre suicídio. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/setembro
/20/Coletiva-suic--dio.pdf

9. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil: 2017 a 2020 [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília: Ministério da Saúde, 2017. https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/17-0522...

10. Arcury TA, Vallejos QM, Schulz MR, Feldman SR, Fleischer AB, Verma A, Quandt SA. Green Tobacco Sickness and Skin Integrity Among Migrant Latino Farmworkers. American Journal of Industrial Medicine, 2008; 51:195-203. Disponível em: http://libres.uncg.edu/ir/uncg/f/M_Schulz_Green_2008.pdf

11. Quandt SA, Arcury TA, Preisser JS, Norton D, Austin C. Migrant farmworkers and green tobacco sickness: New issues for an understudied disease. American Journal of Industrial Medicine, 2000; 37:307-315. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/(SICI)1097-0274(200003)37:3%3C307::AID-AJIM10%3E3.0.CO;2-Z/pdf

12. Campos, E. et al. Occurrence of green tobacco sickness and associated factors in farmers residing in Dom Feliciano Municipality, Rio Grande do Sul State, Southern Region of Brazil. Cadernos de Saúde Pública [online]. 2020, v. 36, n. 8. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/b4ZChXvNLXbvzPn9SScrgqG/abstract/?lang=en#. Acesso em 19 Agosto 2021

13. OLIVEIRA, P.P.V. et al. First reported outbreak of green tobacco sickness in Brazil. Cad. Saúde Pública [online]. 2010, vol.26, n.12 [citado 2017-03-02], pp.2263-2269. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/gptQH8y8NVRyMpCMyPZcvnn/?lang=en

14 Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância. A situação do câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2006. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/situacao_cancer_brasil.pdf

15. SKINCANCER FOUNDATION. Understanding UVA and UVB. Disponível em: http://www.skincancer.org/understanding-uva-and-uvb.html

16. Colditz G.A., Sellers T.A., Trapino E. Epidemiology: identifying the causes and preventability of cancer. Nature, 2006; 6:75-83. Disponível em: http://www.nature.com/nrc/journal/v6/n1/pdf/nrc1784.pdf

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